A discussão sobre uma nova rodada de corte de tributos ainda este ano provocou ontem uma crise no Ministério da Fazenda, levando o ministro Guido Mantega a desautorizar publicamente um dos seus principais auxiliares, o secretário de Política Econômica, Julio Sérgio Gomes de Almeida. Mantega considerou "inadequadas, inoportunas, infelizes e atravessadas" as declarações feitas pela manhã por Gomes de Almeida.

Por iniciativa própria, o secretário havia procurado a imprensa para afirmar que o governo não adotaria qualquer desoneração tributária ainda este ano. "Nem que o governo arriasse as calças não tem espaço para novas desonerações", afirmou Gomes de Almeida, numa declaração que atingiu em cheio o ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Luiz Fernando Furlan, que esta semana defendeu a redução de tributos para os setores de bens de capital, construção civil e semicondutores.

As palavras de Gomes de Almeida foram consideradas deselegantes e causaram mal-estar não só no Ministério da Fazenda como também em outras áreas do governo. Ao sair do ministério ontem à noite, o secretário não quis comentar a reação do ministro. Questionado se pediria demissão fez um sinal negativo com a mão. O incidente que provocou, no entanto, obrigou Mantega a tentar um contato telefônico com Furlan, para conversar sobre as declarações do secretário. Furlan, que tirou férias até o final da próxima semana, não foi encontrado, segundo o ministro da Fazenda.

Segundo alguns assessores, Gomes de Almeida quis ter uma ação preventiva. Tentou descartar a desoneração na expectativa de conter o movimento de formação de estoque especulativo nos setores supostamente beneficiados pela medida. A preocupação do secretário, segundo essas fontes, foi a de evitar que as empresas suspendessem suas encomendas às fábricas para esperar pela queda de preço que seria provocada com a redução dos impostos. Não foi feliz e sua demissão está sendo considerada no ministério.

Demissão

O ministro Mantega, minimizou a possibilidade de demissão. "Não é o caso de uma medida extrema." Mas o fato é que o comportamento do secretário tem se caracterizado pelo descompasso. "Ele tem tido um comportamento fora do tom", admitiu um assessor, para quem Gomes de Almeida não deveria ter falado de temas que não são da sua competência. "Cada macaco em seu galho", disse essa fonte.

A preocupação de Mantega foi a de desfazer interpretações de que neste momento de campanha eleitoral, o governo esteja enfrentando confronto entre ministros. A assessoria do Ministério do Desenvolvimento não quis se pronunciar sobre o bate-boca. Os assessores de Furlan não optaram pela via do confronto porque identificam em Gomes de Almeida um aliado. O secretário, antes de ir para o governo, atuava no Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), responsável pela elaboração de estudos em favor das reivindicações do setor industrial.

Mantega disse ao Estado que as medidas devem ser anunciadas dentro de duas semanas e seu secretário confirmou a adoção do crédito consignado para a compra de imóveis.