A linha do crescimento e do desenvolvimento é quase invisível. As transformações pretendidas pela sociedade brasileira estão distantes. A redução drástica do quadro de exclusão social e o estabelecimento de um novo padrão ético de conduta na vida pública são metas esquecidas, de um lado pelo fracasso estrondoso do programa Fome Zero, de outro, pelo acachapante furor do caso Waldomiro. Para cumular, explode agora a violência no campo como nunca. O “império da lei” perde para o “império da desordem” nesse Brasil das desesperanças.

Esforça-se o governo na repetição de que a reforma agrária não será realizada no grito. Mas quanto mais se esgoela, mais invasões acontecem. Somente no fim de semana que passou, foram contabilizadas 32 – duas no Paraná, onde o número de propriedades invadidas já está próximo de 70. Em Alagoas, Bahia, Ceará, Espírito Santo, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Paraíba, Pernambuco, Piauí, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul – em quase todos os lugares há invasões, geralmente acompanhadas de muita destruição, que confirmam a promessa de “infernizar” ou “azucrinar” sem trégua feita pelo líder máximo do MST – Movimento dos Sem Terra, João Pedro Stédile, neste abril vermelho.

Em nome da democracia que nega o revide à violência da invasão, em Brasília o governo assiste a tudo. De braços cruzados. Contribui, aliás, com gestos que acabam incentivando a baderna. Logo depois das ameaças de Stédile, reconfirmadas em ambiente parlamentar, promoveu reunião de emergência e anunciou uma suplementação orçamentária de R$ 1,7 bilhão – reforço de caixa para garantir assentamentos na esperança de, com isso, abrandar a situação. O tiro saiu pela culatra. Em vez de acalmar as lideranças das hordas invasoras, a “coincidência” do encontro e da decisão ateou fogo no palheiro. E dizem que, agindo assim, o governo é já refém do MST, que dá o tom, marca o dia e indica as armas do confronto.

O ministro do Desenvolvimento Agrário, Miguel Rosseto, entende que o debate agrário está fora de tom. Pudera. Distribui ripadas sobre as lideranças dos sem-terra, mas também no lombo do governo a que serve, na crista das elites arrogantes e, também, nos críticos do próprio governo ausente. Não se sabe onde ele quer chegar exatamente, mas aparentemente perdeu o ânimo de atribuir tudo o que de ruim existe no setor ao antecessor de Lula, Fernando Henrique Cardoso. Como ministro, de fato, não é seu papel gostar ou desgostar de leis e, sim, cumpri-las.

Não tem outro caminho. Se o governo não faz, os proprietários, fazendeiros e latifundiários assumirão a defesa do patrimônio que, além de tudo, custa impostos, taxas e tarifas. A seu modo e nas condições possíveis. No Rio de Janeiro, por exemplo, produtores rurais também estudam a realização de leilões de animais, “com o objetivo de angariar fundos para fazer frente a eventuais gastos jurídicos” – palavreado em demasia para esconder a finalidade genérica do uso do dinheiro para a proteção das propriedades, sejam casas, máquinas, manadas ou florestas. Fala-se na reação pelas vias legais, mas sugere-se a compra de armas. Falta liderança – dizem os fazendeiros – planejamento e orientação do governo para não deixar essa bagunça e esculhambação ir à frente. “O governo está acéfalo. Estamos completamente inseguros e perplexos”, queixam-se, com razão.

Tão rápido em ver golpes e desestabilizações na área política, tumultuada pelo Waldogate (chegou-se a falar até em derrubar o governo!), esse mesmo governo age com leniência diante da quebra da ordem, ação que é repetida de norte a sul dentro de um programa previamente anunciado e arquitetado à luz do dia. Isso nada tem a ver com democracia. E essa sensação de desgoverno é muito mais incendiária que a fogueira acesa ao lado da Casa Civil por um ex-assessor parlamentar com trânsito livre para delinqüir. Estamos, assim, à beira de perigoso abismo, cuja profundidade depende muito mais do governo que de excluídos a soldo de lideranças sem responsabilidade com a nação. Será tão fundo quanto sua omissão na constitucional tarefa de garantir a ordem pública, sem o que não haverá crescimento, nem desenvolvimento, nem esperanças.