A deflação de 0,21% apontada pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) em junho confirmou o fim da cultura inflacionária no País e acenou para maiores cortes nos juros básicos (Selic) neste ano. Foi a menor taxa apurada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) desde agosto de 1998, garantindo uma inflação de 1,54% no primeiro semestre, a menor para o período na série histórica iniciada em 1994.

A deflação de junho, divulgada ontem, distancia ainda mais o IPCA – referência para as metas de inflação do governo – da meta de 4,5% este ano. A taxa em 12 meses caiu para 4,03%, ante 4,23% até maio. É a menor desde julho de 1999.

"Há uma consolidação de todo um processo de estabilização de preços que vem desde o início do Plano Real", avalia Eulina Nunes dos Santos, coordenadora de índices de preços do IBGE. Para Adriano Lopes, economista do Unibanco, a taxa de junho aumenta a chance de mais cortes da Selic neste ano.

O cenário projetado pelo Unibanco prevê corte de 0,5 ponto porcentual na Selic, este mês, para 14,75%, e de mais 0,25 ponto até o fim do ano, para 14,5%. Em dezembro de 2005, a taxa estava em 18% e chegou ao pico de 19,75% entre maio e agosto de 2005. Para Lopes, o IPCA de junho deixa do Banco Central (BC) "mais confortável" para cumprir a meta do ano.

Com o mesmo cenário trabalha Edgard Pereira, economista da Unicamp. Para ele, a Selic fecha o ano em 14,25%, mas por excesso de conservadorismo do BC, que na sua avaliação poderia intensificar ,com tranqüilidade, o corte dos juros, diante de uma inflação que não deverá ultrapassar 4% em 2006.

Paulo Leme, economista do Goldman Sachs, avaliou a deflação de junho como um balizador para o resultado do ano. "Trata-se de um resultado encorajador", disse, acrescentando que isso poderá garantir um IPCA inferior a 4% no ano. Ele acrescentou que, "no geral, o Brasil continua a ter uma encorajadora mistura de inflação abaixo da meta e uma gradual (mas não brilhante) expansão econômica". Leme acredita que o "espaço para um maior relaxamento monetário vai continuar pelo menos até agosto.

"O novo declínio na inflação corrente e no núcleo deverá levar a uma nova queda nas expectativas inflacionárias", disse o economista sênior do banco Dresdner Kleinwort, Nuno Camara. "Por isso, nossa aposta no corte de 50 pontos-base na Selic neste mês permanece inalterada.