Papo de candidato é cheio de promessas. Papo de eleito é cheio de escusas. E meias-verdades, porque o que o eleito fez ou faz será sempre menos do que prometeu. Escusas porque, quando flagrado nas meias-verdades, que nem sempre contêm o vírus da mentira, sente-se compelido a se justificar. A caminhada política não pode ser interrompida e novas eleições virão. E é impossível mentir a todos, todo o tempo, como já disse um antigo estadista norte-americano.

No caso de Lula, em matéria de promessas, sempre foi pródigo. Meias-verdades, pelo menos propositadamente, parece que não costuma dizer. E escusas, as repete todos os dias, pois busca ser sincero com o povo quando descobre a sua impotência como presidente, para resolver todos os problemas nacionais e cumprir todas as promessas. Descobre a impotência e também a incompetência do governo.

Um dos setores onde é impotente e incompetente é produzir sozinho o desenvolvimento econômico. Há um equívoco quando se trata o ajuste fiscal como política econômica. É, quando muito, um aspecto dela, pré-condição para que aconteça ou deixe de acontecer. Políticas econômicas, o governo deve ter, se bem que não tem. Mas a meta de desenvolvimento de um país se atinge com a ajuda e participação do governo, mas principalmente através dos esforços das forças produtivas. E, dentre elas, nem sempre se inclui o poder público. Serão a indústria, o comércio, o setor de serviços, o setor financeiro privado e também, público, os trabalhadores que farão a maior parte do desenvolvimento econômico. Com uma política desenvolvimentista governamental, se existir. Sem ela, se necessário.

Assim, que do peso de governar que aflige Lula seja retirada grande parte da responsabilidade pela política econômica e pelo desenvolvimento. Aquela pode ser de obrigações inescapáveis. O desenvolvimento é objetivo que, para se alcançar, é preciso partilhar responsabilidades com a sociedade, de acordo com a conjuntura interna e internacional e com as forças de mercado. No mesmo encontro em que falou em cautela, em manutenção da política econômica e ainda se queixou de que são divulgadas só as más notícias, com omissão das boas, o presidente e os empresários defenderam um desenvolvimento “mais homogêneo”, que beneficie todas as regiões do País.

É por aí, mas as diferenças no processo de desenvolvimento, e principalmente em suas conseqüências, já não se verificam só nos planos regionais. O Nordeste era e continua pobre, mas hoje, há miséria e das brabas em pleno Sul. E até nas capitais.

Devemos, o governo e nós, a sociedade, preocupar-nos (e envergonhar-nos) do que a FGV acaba de informar. Os miseráveis, no Brasil, já somam 33% da população. E, por miseráveis, foram considerados os que têm renda mensal abaixo de R$ 79,00. Esse é um dado assustador e revela uma situação que não pode se manter enquanto se procura produzir um desenvolvimento sem pressa. A homogeneidade do desenvolvimento, de que fala Lula, tem de começar pelo combate imediato dessa miséria de um terço da população. O dado da FGV de que, se cada cidadão que vive acima da linha da pobreza der apenas R$ 14,00 por mês, teremos R$ 2 bilhões, o suficiente para socorrer esses milhões de patrícios excluídos, deve servir como parâmetro. Mas que não se busque a solução do assistencialismo, a esmola de R$ 14,00. Lembremos o que disse Lula: precisamos de um desenvolvimento econômico homogêneo e sustentável. As esmolas são perigosos paliativos.