O Ensino Religioso no Paraná possui uma longa história de favorecimento do diálogo entre as tradições religiosas. Um exemplo é Assintec. Contribuir na compreensão da diversidade religiosa é uma das ações da educação. Outra experiência é a URI, uma organização internacional, sem fins lucrativos, criada com o propósito de promover a cooperação inter-religiosa permanente e cotidiana, para erradicar a violência de motivação religiosa e criar culturas de paz, justiça e cura para a Terra e para todos os seres vivos.

É importante destacar que a URI não é uma religião. O diretor executivo da URI Global, Charles Gibbs, costuma defini-la como uma comunidade global que constrói pontes nas comunicações. Tem como um de seus princípios respeitar a sabedoria sagrada de cada religião, expressão espiritual e tradição indígena e as diferenças entre elas.

A visão da URI surgiu em 1993, quando a Organização das Nações Unidas convidou William Swing, bispo episcopal da Califórnia, para acolher um serviço de cooperação entre crenças ou fé pela paz entre as religiões, em São Francisco.

Naquela noite, o bispo encontrou dificuldade para dormir. Ele disse para si próprio: ?Se as nações estão trabalhando juntas pela paz no mundo, então, onde estão as religiões do mundo?? A inspiração trouxe-lhe a idéia da criação de uma organização, por onde pessoas de diversas crenças e de todos os setores da sociedade pudessem cooperar para a paz e justiça para todos.

Da primeira reunião global em 1996, à assinatura da Carta em 2000, integraram-se ao movimento milhares de pessoas de diversas localidades, religiões, expressões espirituais e tradições indígenas, para criar os fundamentos da organização que seria a Carta da URI. A Carta da URI resultou deste longo processo e foi assinada em 2000, marcando a fundação oficial da United Religions Iniciative (Iniciativa das Religiões Unidas) URI. Sua sede foi instalada em São Francisco, na Califórnia, EUA, onde permanece.

A URI se faz presente em todas as partes do mundo, através dos Círculos de Cooperação, que são suas unidades locais. São grupos auto-organizados que atuam localmente, elegem suas prioridades, mas que estão globalmente conectados. Embora constituída por grupos autônomos e independentes, possui um Conselho Global formado por representantes dos CCs de todos os continentes, que de três em três anos se reúne. O último foi em 2005, em Seul, na Coréia do Sul.

Em Curitiba, o CC elegeu como prioridade de seu trabalho o desenvolvimento de ações voltadas para a educação pela paz e o diálogo inter-religioso, fundamentado nos seguintes princípios: exercício da tolerância na pluralidade; ação facilitadora nos processos de mudança e transformação da humanidade; fortalecimento da atividade espiritual consciente; exercício da cidadania e desenvolvimento do voluntariado nas suas ações.

Uma experiência de atuação da URI

Conheci a aldeia guarani Karuguá, através do trabalho do Círculo de Cooperação de Curitiba da URI – United Religions Iniciative (Iniciativa das Religiões Unidas). Impressionou-me, logo de início, a espiritualidade daquele povo. Passei momentos raros na Casa de Reza Opy, onde crianças, jovens e adultos rezavam através da dança e de cânticos sagrados, tendo ao fundo a música de seu povo, tocada pelos jovens da aldeia. O entusiasmo, a alegria, a participação das crianças, cantando vibrantes e dançando espontaneamente, me tocaram profundamente.

Naquele momento, eu entendi que o espiritual, a fé de um povo, nasce com ele, é inerente a ele e brota naturalmente, de acordo com sua época, seus costumes, seus hábitos, suas necessidades, seu meio ambiente. Ao longo dos anos, tudo isso vai se constituindo nas suas tradições, na sua cultura, passando de geração a geração. Ali presenciei um pedaço de tudo isso. Talvez uma das poucas coisas que perdurou, porque a fé, a espiritualidade desse povo é mais forte do que tudo, que sua vida, é o seu dia-a-dia, não podem ser separados.

Foi a lição mais bonita que aprendi com os guaranis da aldeia Karuguá: eles vivem a sua espiritualidade em cada momento da vida, em cada tarefa realizada.

A URI de Curitiba estava ali participando, a pedido deles, justamente do resgate de uma das suas tradições – a apicultura – de grande importância para eles, porque além de fornecer a cera para fabricação das velas, tão importantes em seus rituais, dá alimento e fonte de sobrevivência.

Por que a URI se interessou pelo projeto? Porque é sua proposta ?criar culturas de paz, justiça e cura para a Terra e para todos os seres vivos?. Além disso, são princípios de sua Carta, entre outros, respeitar a sabedoria sagrada e as diferenças entre as religiões, expressões espirituais e tradições indígenas; encorajar seus membros a aprofundar suas raízes em suas próprias tradições, praticar a cura; agir em consonância com práticas ecológicas saudáveis, para proteger a Terra em favor das gerações presentes e futuras; buscar e aconselhar a dádiva de diversidade e práticas exemplares que não discriminem; honrar a riqueza e a diversidade de todos os idiomas.

A discussão do Ensino Religioso se torna efetiva em ações que favorecem o diálogo efetivo das tradições religiosas.