O entrevero entre a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, e o ministro da Fazenda, Antônio Palocci, principais atores de um drama que tem um grande elenco no governo e na sociedade brasileira, virou um dilema: ?Se correr, o bicho pega; se ficar, o bicho come?.

Dilma e vários outros ministros, um grande número de empresários e grupos da esquerda mais autêntica do situacionismo são contra a política econômica atual, que leva à obtenção de elevados superávites primários para pagar os credores do Brasil, em especial os do exterior. Essa política de ajuste fiscal, levada por Palocci até aqui, com apoio decidido de Lula, faz uma economia maior que a recomendada pelo Fundo Monetário Internacional. E maior até do que a que consta dos planos do próprio governo. Neste ano, a meta era de 4,25% do PIB e Palocci já obteve mais de 5%. Aí, Dilma e a turma gritou, pois faltou dinheiro para os projetos de diversos ministérios e investimentos públicos para obras, planos sociais, saúde, educação e até para a campanha de vacinação do gado contra a aftosa. As empresas sentiram o aperto, que piorou com os juros muito elevados. E os trabalhadores ficaram no desemprego recorde.

A tentativa de fritura de Palocci começou. Ele teria de diminuir esse superávit, limitando-o a 4,25% do PIB. Imaginou-se, com alguma lógica, que Lula estava estimulando Dilma a atacar Palocci para que este concordasse com uma política menos apertada e um superávit do tamanho que consta nos planos governamentais. O aperto atrapalha a campanha.

As últimas notícias dão conta que Lula e Palocci concordaram em um superávit de 4,5%, menor do que aquele que a ?mão de vaca? do ministro vinha conseguindo, mas ainda assim maior do que o planejado, que o ministro considera pequeno.

Lula e Palocci teriam concordado com a nova meta, o presidente na esperança de que a economia nesse patamar não atrapalhe muito seu plano de soltar dinheiro para os ministérios e desenvolver alguns projetos sociais, ideais num ano eleitoral em que o chefe da nação ambiciona a reeleição.

Para os brasileiros, um dilema. Uma política frouxa, com superávites primários pequenos, desagradaria o mercado e os empréstimos e investimentos diretos secariam. Essa política, praticada por um governo de um partido que já chegou a pregar a moratória, pode ser vista lá fora como um perigo iminente de calote geral. A retração levaria à recessão e o povo seria sua vítima. De outro lado, vítima já é com os superávites primários muito elevados impostos por Palocci, pois o governo pouco ou nada faz dos vários programas que tem nos seus ministérios. E praticamente nada do que prometeu em campanha eleitoral. O povo, assim, também é prejudicado, pois o desenvolvimento econômico é pífio e o desemprego continua alto.

Mas, como já disse o filósofo, a sabedoria está no meio. E se de fato houve acordo em torno de um superávit de 4,5%, menos pior. Permaneceria o ministro da Fazenda, os demais ministros fingiriam que concordaram e Lula tentará a reeleição. Os brasileiros ficam no mesmo lugar, onde se diz que o bicho não pega.