O senador Renan Calheiros (PMDB-AL), presidente do Senado, abstraindo qualquer menosprezo à relevância do cargo ainda ocupado, a despeito da ininterrupta barragem de fogo a que está submetido desde a explosiva matéria publicada pela revista Veja sobre suas relações extraconjugais, é a bola da vez.

A capacidade de resistência do senador alagoano, em que pese a rija reivindicação da inculpabilidade que a todos parece improvável, tendo em vista o acúmulo de expedientes nebulosos quanto à origem de sua renda pessoal, o aproxima da descrição do grande Euclides da Cunha sobre as qualidades do bravo sertanejo nordestino.

Pena que sua excelência tenha se deixado embair por obsessão própria, ou aconselhamento de terceiros, que a pompa solene que reveste a função de presidente do Congresso Nacional, ademais da relevante expectativa de ser o terceiro na linha de sucessão da Presidência da República, teriam também a magia adicional de blindar sua inatacável persona.

Dir-se-ia que o senador alagoano gastou todos os seus cartuchos – e não foram poucos – mas nenhum produziu o efeito esperado. De igual forma, as evidências finalmente escancaradas de que o Conselho de Ética estava sendo coagido a arquivar em definitivo um caso que, ao contrário, necessita ser aclarado em todas as minúcias, chegaram ao ponto de saturação e ensejaram reação digna da tradição histórica da instituição.

O Conselho de Ética, respaldado pelos nomes mais ilustres da Casa, decidiu constituir três relatores para examinar o processo aberto contra Renan. E para remover quaisquer dúvidas alongou até a próxima terça-feira o prazo para que o presidente questione o processo ou apresente novos documentos.

Para que haja justiça em plenitude, ao acusado deve-se garantir o direito de se defender. É diferente da atitude desfibrada de condescender com a manipulação e a arrogância, na maioria das vezes uma demonstração de abuso de poder, tão deslocado quanto abusivo.

A comunhão nacional acompanha com interesse o andamento do caso Renan, não movida pelo desejo puro e simples da punição. Ao contrário, a sociedade não aceita mais o império da mentira.