O diretor de Assuntos Internacionais do Banco Central (BC), Alexandre Schwartsman, afirmou hoje (23) ser a favor do fim da chamada cobertura cambial, ou seja, da obrigatoriedade que os exportadores têm de trazer para o País os dólares obtidos com as vendas externas, dentro de um prazo estabelecido – atualmente de 210 dias. A proposta consta de projeto de lei complementar do senador Fernando Bezerra (PTB-RN) apresentada no início deste ano no Senado, com o apoio de entidades empresariais. Foi a primeira vez que um membro da direção do BC se manifestou abertamente sobre o assunto.

Segundo Schwartsman, o fim da cobertura cambial seria benéfico porque reduziria custos para os exportadores. Estimativas da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) dão conta de que a obrigatoriedade de internalizar os recursos representa para as empresas um custo de cerca de 4% do valor transacionado. O diretor do BC ressalvou que não pode subscrever essas estimativas porque não fez os cálculos.

Para ele, o fim da cobertura cambial não deve provocar impacto significativo no fluxo de dólares para o Brasil porque os recursos que entram também saem do País para quitar compromissos com credores externos. Segundo Schwartsman, a medida só evitaria o movimento de entra e sai constante de divisas, que causa despesas extras para as empresas.

Schwartsman evitou comentar a possibilidade dos exportadores terem contas em dólar, outra medida prevista no projeto do senador. Ele não quis também fazer previsões sobre a tramitação do projeto, mas disse que o BC vai se envolver na discussão da matéria. Quando o projeto foi apresentado, Schwartsman reuniu-se com Fernando Bezerra, a quem teria dito que o BC seria contra a criação da conta em dólar no sistema financeiro nacional.

O gerente do Departamento de Relações Internacionais e Comércio Exterior (Derex) da Fiesp, Emílio Garofalo, considerou positiva a manifestação de Schwartsman favorável ao fim da cobertura cambial. "Ele está engrossando o coro da grande maioria dos formadores de opinião. Espero que isso se traduza em uma aceleração da proposta em tramitação", disse. "Não conheço outro país no mundo em que exista obrigatoriedade de trazer dólares obtidos com as exportações."

Garofalo concordou com a avaliação de Schwartsman de que a medida não vai impactar o fluxo cambial. "É bobagem dizer que isso vai mexer na taxa de câmbio", afirmou, acrescentando que o fim da cobertura só evitará que o exportador feche o câmbio em momentos que não lhe interessem ou tragam para o País recursos que poderiam ser utilizados para pagar dívidas diretamente lá fora. Ele defendeu ainda a criação das contas em dólar. "Para nós, não importa se essa conta será no sistema financeiro nacional ou lá fora. O fundamental é que exista", afirmou.