O ministro-chefe da Casa Civil do governo Lula, José Dirceu, disse em Curitiba, recentemente, que fazer reforma é como dançar um bolero: dois pra lá, dois pra cá. Com isso, ele pretendeu negar que o governo tenha feito custosas concessões para obter o encaminhamento das reformas da Previdência e tributária, e justificou as idas e vindas do Planalto -às vezes tonto diante das pressões e contrapressões dos governadores e prefeitos, tão interessados na partilha do bolo quanto a União.

A imagem cunhada por José Dirceu parece original. Sugere, entre outras coisas, o paciente jogo do pescador que, ao lidar com o peixe, vai-lhe dando linha até fisgá-lo definitivamente. Ou, por outra, o ritmo ou a evolução de uma dança repetitiva onde o que interessa é a oportunidade de aproximação entre os pares, não a coreografia. Gabou-se o ministro, na oportunidade, de seu trabalho na coordenação política do governo, graças ao que o Planalto tem obtido a maioria necessária para implementar propostas – pelo menos até aqui. Um jogo ou uma dança que atirou nos braços do governo do PT o outrora maior partido do Ocidente, o PMDB, que embora dividido passa a participar, com Lula, do butim.

Olhando mais à distância, entretanto, a imagem cunhada pelo ministro pode assumir outro significado. Bem diverso daquele pretendido, pode simbolizar a falta de rumos, algo assim como alguém perdido no meio de um salão, sem saber para onde ir. Dos projetos sociais capitaneados pelo até aqui fracassado Fome Zero à promessa de início imediato do espetáculo do crescimento e da produção, com a premente necessidade de geração de novos empregos (a promessa é de dez milhões deles em quatro anos), idas e vindas aprisionaram o governo numa letargia sem precedentes, a ponto de existirem ministros, como é o caso de Benedita da Silva, há nove meses nomeados, que ainda não sabem o que devem fazer no governo. O Planalto não sabe dizer nem mesmo qual será o futuro do Ministério da Assistência e Promoção Social. Dias atrás, falava-se que o futuro de Benedita seria alguma vaga na FAO, organismo que cuida de agricultura e alimentação da Organização das Nações Unidas…

A entrada do PMDB nessa dança de “dois pra lá, dois pra cá”, se ajuda de um lado, pode complicar de outro. É mais gente a reivindicar oportunidades, nomeações e cargos, já motivo de ferrenha e duradoura disputa interna no próprio PT, que, por sua vez, já está mordido pela mosca azul da reeleição. A começar pelos dois ministérios que se anuncia que serão loteados na primeira “grande reforma” do governo Lula, vamos assistir a uma nova corrida ao pote de ouro quando, na verdade, a máquina pública deveria já estar em funcionamento pleno na satisfação das promessas feitas aos eleitores da esperança. Esperança que, no caso dos sem-terra, já assume aspecto de pesadelo, pois enquanto Lula veste o boné do movimento, manda trocar o “companheiro” presidente do Incra, “recapturando” o órgão, no dizer do ex-ministro do Desenvolvimento Agrário, Raul Jungmann.

Foi esse “dois pra lá, dois pra cá” – deixemos de lado os problemas gerados nos setores da Saúde, da Educação e da Cultura – que desfigurou outra vez a reforma da Previdência, sobre a qual o Planalto apostou todas as fichas. Nela, alguns setores foram prejudicados enquanto outros, já bem aquinhoados, consagraram (para não dizer que avançaram ainda mais nas conquistas corporativas) privilégios – os mesmos que até aqui eram apontados como causa dos males motivadores da própria reforma. Espera-se agora que o desfecho da reforma tributária, já transformada num leilão pela partilha dos tributos que pagamos, incluindo a CPMF, não seja apenas outro golpe contra os contribuintes.