Não faz muitos dias, na República Dominicana, o presidente Lula justificava sua viagem ao Gabão, na África. Foi lá conhecer como um presidente é capaz de ficar trinta e sete anos no poder e ainda concorrer à reeleição. Na terça-feira que passou, Lula lamentou – e confessou não saber se é justo que isso aconteça – que o presidente de Moçambique, Joaquim Chissano, há 18 anos no poder, tenha desistido de concorrer à reeleição em seu país. Pelo sim, pelo não, decretou-lhe o perdão da dívida.

Durante a assinatura de acordos entre o Brasil e Moçambique, no Palácio do Planalto, Lula se desdobrou em elogios ao visitante que, embora não tenha impedimentos constitucionais, anunciou sua decisão de pendurar a chuteira. “Isso – disse o presidente brasileiro – é mais uma demonstração de que vocês conseguiram, depois de 16 anos de guerrilha, depois do aprendizado de uma guerra, depois de muito sofrimento, vocês aprenderam a valorizar como poucos o simbolismo e o valor real do exercício da democracia.” Mas – prosseguiu – “eu fico imaginando se é direito, ou é justo uma pessoa que conquistou a liderança e a representatividade junto aos países africanos (…) voltar para casa e cuidar de boi zebu”.

Nada contra boiadeiros, naturalmente. Há quem consiga criar bois e tratar de outros negócios. As dúvidas de Lula ultrapassam o clima burlesco que aos poucos vai tomando conta de seus improvisos. Elas podem determinar – e é bem possível que isso ocorra – uma recorrente preocupação do presidente com seu próprio futuro: a longevidade no poder, a mesma que anima o presidente do Gabão, Chissano, Fidel Castro e outros. A princípio, nada de mais. É sempre necessário um pouco de apetite político para alguém se meter na aventura de liderar governos. Mas depois de algum tempo, e antes que a síndrome da imprescindibilidade se lhes assalte a mente, é salutar que o desconfiômetro dos líderes verdadeiramente democráticos também funcione para dar lugar à renovação. A salutar renovação que oxigena qualquer democracia.

Na mesma oportunidade, Lula assinou ato em que o Brasil perdoa a dívida de Moçambique: 315 milhões de dólares esquecidos, mais 16 milhões de dólares que serão convertidos em investimento (uma fábrica de medicamentos). Trata-se do terceiro perdão em poucos meses – o primeiro na Bolívia, o segundo também na África. A dívida de Moçambique, assim como as demais perdoadas, segundo explicação do ministro Antônio Palocci, da Fazenda, já estava inscrita na lista de créditos de recebimento duvidoso e, por isso, não terá impacto sobre as contas brasileiras, monitoradas pelo outrora famigerado FMI – Fundo Monetário Internacional. Outros países que nos devem, mas que “nunca conseguirão pagar a dívida” (mas quem disse que não?), também serão ajudados, segundo afirmou o presidente Lula.

Embora esse processo de perdão não venha de agora, pois faz parte de um tratado do Clube de Paris, do qual o Brasil é signatário, o gesto, nas palavras de Lula, assume a cor de um sonho inatingível, já uma vez sonhado até pelo papa: “Servir de exemplo para que outros países da mesma magnitude do Brasil tenham os mesmos gestos para com outros países pobres que, muitas vezes, têm a mesma dívida que todo mundo sabe que é praticamente impagável, mas essa dívida sempre funciona como uma espécie de espada na cabeça do devedor”. Como a nossa!

Chissano não disse, mas com tudo o que aqui ouviu de graça, poderá até rever sua posição. Afinal, com a dívida perdoada, poderia ter discurso novo numa eventual disputa eleitoral para mais um período no poder. Não é assim que – trocadas as posições – aconteceria se o exemplo de Lula fosse seguido pelos nossos credores que, em lugar de perdão, infelizmente nos impõem superávits orçamentários conseguidos sempre com arrocho tributário e fiscal?