Diz o economista Edmar Bacha, ex-presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, referindo-se aos presidenciáveis da atual campanha eleitoral, que quanto mais se chega perto do poder, mais comportado se fica. De fato, é verdade. O presidenciável Lula já mandou dizer que, caso eleito, vai preservar os projetos mais importantes de Fernando Henrique Cardoso. Pouco antes, o ex-líder sindical distribuía cala-bocas à militância anunciando que não é hora de criticar; é hora de ganhar a eleição. Nada ou quase nada resta do velho PT cansado de guerra, nem de seus braços ativistas, tipo MST. Há relativa paz no campo, lugar de incendiárias invasões no passado recente.

Talvez à conta desse bom-mocismo de ocasião, os programas eleitorais gratuitos ou os palanques desta campanha eleitoral estão demonstrando memória curta demais para o gosto de muitos brasileiros. O tema da vez – mercados financeiros e seus imprevisíveis desdobramentos – embora distante da mesa, cama e banho da maioria, parece ter ofuscado outros importantes assuntos que têm a ver com o futuro imediato do Brasil e dos brasileiros. Dentre assuntos que não merecem ficar debaixo do tapete está, por exemplo, o tema da Previdência. Desconfia-se que todos os candidatos estão passando ao largo dele (no máximo fazem-lhe algumas referências), não por desconsiderar sua importância, mas, simplesmente, porque representa uma espécie de tabu, assunto proibido ou problema insolúvel que, para não complicar, é melhor que fique no canto, quieto como está. Prometer empregos aos milhares (como alguém haverá de conferir depois?) e discutir incongruências da proposta alheia é mais genérico e fácil.

A Previdência brasileira é um buraco negro sem luz no fundo. E, certo como a morte, lá estaremos todos, dentro de poucos anos, segundo advertem especialistas. O colapso já teria data marcada – o ano de 2017. E o buraco continua sendo cavado ano após ano por um sistema que sustenta privilégios a uma minoria (16%) encravada nas tetas do sistema público, contra o sacrifício da maioria (84%) da denominada previdência privada ou da informalidade incentivada pelas altas taxas, encargos e tributos com apelidos sociais. Nesse jogo do tostão contra o milhão, o sistema previdenciário tornou-se um negócio corporativista contra o qual a classe política comprometida nada fez, nada faz e nada promete fazer.

Seria interessante, entretanto, saber o que farão Lula, Serra, Ciro ou Garotinho para resolver o problema, começando pelos chamados direitos adquiridos das minorias corporativas que – como já disse FHC um dia – são, na verdade, privilégios. Seria interessante que deles ouvíssemos como pretendem superar o impasse cavado por cerca de 17% de beneficiários felizes que causam bem mais da metade do déficit, relegando a maioria de salário mínimo a um mínimo cada vez menor e já desvinculado da realidade formal brasileira. Contrapor privilégios contra, como alguém já disse, direitos fraudados poderia ser um bom discurso, um início de jornada na direção de uma sociedade mais justa e igualitária, sem essas brutais diferenças que nos envergonham todos os dias de nossa própria condição humana. O bom comportamento, nesse caso, pode ser apenas indício da mesma e criminosa acomodação até aqui reinante.