Reportagem do Financial Times fez uma análise dos resultados positivos e negativos da administração Lula e desconfia que o mercado está comemorando cedo demais. O mercado aplaude os resultados com a queda do risco-Brasil, das cotações do dólar, as melhores cotações dos títulos brasileiros e os resultados ascendentes de nossas ações na bolsa brasileira, onde também joga o dinheiro estrangeiro.

Antes de assumir, Lula era um herói improvável. Temiam que ele declarasse a moratória da gigantesca dívida externa brasileira. Mas o que aconteceu foi o inverso, o que explica por que as ações atingiram picos históricos e, graças a um esforço que já se desenvolvia no governo anterior, as exportações cresceram. Lula dedica-se às reformas tributária e previdenciária, o que também agrada aos mercados. Mas o mercado aguarda, disto, efeitos de longo prazo.

“Resta saber se a comemoração do mercado não veio cedo demais”, indaga. E justifica a desconfiança lembrando que os números do Produto Interno Bruto do terceiro trimestre revelam que o País sai da recessão a passos dolorosamente lentos. O crescimento foi de míseros 0,4%. “O governo soube estabilizar a economia, mas deve agora buscar novos caminhos para a promoção de um crescimento sustentável a ritmo mais acelerado”, diz a análise do influente jornal britânico.

Os investidores aplaudem os resultados já colhidos e a severa política fiscal. Mas o Brasil precisa ainda sair do poço profundo em que mergulhou. A estimular o entusiasmo, não faltam dados. Mas deve-se considerar que a demanda no mercado interno é hoje menor que a verificada no mesmo período de 2002. O desemprego cresceu e, em termos percentuais, os trabalhadores recebem 15,2% a menos do que recebiam há um ano.

À euforia do mercado se opõem o crescimento do número de falências e a queda do investimento direto estrangeiro. Empresas, prefeituras e até estados vêem-se sem dinheiro até para pagar o 13.º salário. Há sinais de recuperação, mas são tão tênues que é difícil imaginar que o País vá crescer no ano que vem mais do que 3% ou 4%. E estas estimativas são, ainda, bastante otimistas.

Contra a talvez extemporânea euforia do mercado estão as taxas de juros, que ainda são cobradas em percentuais exorbitantes pelo sistema financeiro. O peso dos juros e do pagamento de dívidas continua devastador e mesmo com a obtenção de um superávit fiscal primário de 4,25% (na realidade, foi mais de 5%), o déficit fiscal brasileiro é superior à marca de 4% do PIB. E o peso dos juros e do pagamento de dívidas continua devastador.

As reformas surtirão efeitos positivos, mas a longo prazo. Aconselha o artigo do Financial Times que o governo Lula deve agora iniciar novas e prioritárias reformas, como a clarificação das regulamentações dos setores de energia e telecomunicação, para dar segurança aos futuros investidores. Aconselha também a redução da burocracia, que cria obstáculos a quem queira fazer negócios com o Brasil. É preciso que tenhamos procedimentos judiciais simplificados e não tão intrincados como atualmente. O governo deve simplificar suas operações e tudo isso deveria começar já, com a anunciada e próxima reforma ministerial.

O mercado revela uma euforia um tanto extemporânea, pois há, ainda, tempo de jogo suficiente para ganhar ou perder.