Dia desses, aqui em O Estado do Paraná, o jornalista João Féder regozijou-se com o senador Roberto Requião que, na condição de candidato ao governo do Paraná, tem se manifestado contra o jogo em geral e as casas de bingo em particular. Como o professor Féder, eu também recebi, do gabinete do senador, a informação de que há dois anos tramita no Senado Federal um projeto de sua autoria acabando com a jogatina no Brasil.

Entende o senador Requião, assim como todo cidadão de bem, não inteiramente imbecilizado e com um pingo de esperança neste País, que o bingo e a jogatina “só têm servido para a lavagem de dinheiro, para os grupos apoiados pelo narcotráfico e pelas máfias internacionais”.

Não sei se o nosso Roberto está sendo sincero nessa cruzada – gostaria, sinceramente, que estivesse – ou se essa é apenas uma das muitas bravatas do “Zorro das Araucárias”.

De uma forma ou de outra, professor Féder, tenho a sensação de que nós, que almejamos dias mais decentes e menos canalhas para o Brasil e para os brasileiros, somos apenas uns ingênuos sonhadores. Os bingos vieram para ficar. Pelo menos enquanto houver um miligrama de sangue disponível na jugular dos pobres diabos que os sustentam. Como virão, em breve, os cassinos, naves-mãe da ilusão e da patifaria, devidamente equipadas para enganar trouxas e expandir o vício, o lucro e o banditismo. Tem muito dinheiro em jogo -não é patético? Os interesses envolvidos são enormes, descomunais. O “lobby” avança e se intensifica. Na mídia, no Congresso Nacional e entre os inocentes de boa-fé.

De minha parte, sem nenhum puritanismo, continuo mantendo profilática distância dos bingos. Nunca tive sequer a curiosidade de conhecer um desses incrementados templos da riqueza e do lazer. Sempre fui pobre, satisfaço-me com a minha pobreza e não será agora que resolverei ficar rico. E, ainda por cima, num passe de mágica. Não tenho mais idade nem paciência para isso. Mas conheço muito bem os perversos efeitos da jogatina. Sou capaz, até, de recitá-los de cor. Da simples inimizade entre amigos fraternos ao corpo de um suicida estendido no chão, passando pela cobiça, pela ganância, pelo desespero e pela loucura. Ah, sim, o jogo gera emprego! O tráfico de drogas e de bebês, a prostituição, os seqüestros e o retalhamento de crianças também.

Por causa do jogo já andei me indispondo com uma carimbada autoridade pública estadual, tida como especialista no assunto, num lamentável bate-boca público. Até o Ministério Público entrou no salão. E fez o seu lance. Se ganhou ou perdeu é ainda uma incógnita, já que o nosso Judiciário, como se sabe, não prima pela celeridade.

Ultimamente, tenho acompanhado, pela imprensa, sem nenhuma emoção, a queda-de-braço entre o governo do Estado e os bingueiros. É um tal de proíbe-libera máquinas de caça-níqueis e videoloterias. Nada, porém, que uma boa conversa não resolva. Afinal, é tudo jogo mesmo. Inclusive de cena.

Depois, que moral tem para falar quem sustenta, oficialmente, toda sorte de loterias, quinas, senas, telessenas, megassenas, toto-bolas, telebingos e bingões? E esse tal de mercado financeiro, o que é? As bolsas e bolsinhas, os bolsões e os fundos de investimento, na essência, não passam de casas de apostas. É tudo jogatina, dr. Féder! Requião neles!

Célio Heitor Guimarães é um cidadão paranaense sem cacife, mas com algum juízo.