Carlos, Herbert, Ricardo,
Sérgio e Nelson: pioneiros.

Agricultores que se utilizam do sistema de produção agrícola baseado no plantio direto na palha irão trocar experiências durante a 10.ª Expotécnica que será realizada em Sabáudia nos dias 7 e 8 de agosto. Produtores que fizeram a transposição do sistema tradicional para essa alternativa no início dos anos 70 se reuniram em Rolândia, dias atrás, e recontaram a história da introdução dessa técnica de plantio que viabiliza a propriedade rural – seja pequena, média ou grande – e é determinante para garantir a sobrevivência da agricultura familiar.

O engenheiro agrônomo Nelson Harger da Unidade Regional da Emater-Paraná de Apucarana, integrante da comissão organizadora desde a primeira edição da Expotécnica, articulou a reunião com os produtores rurais. O grupo destacou os desafios enfrentados, mostrou resultados e encaminhamentos de soluções. Produtores discutiram as dificuldades com o solo de basalto e os problemas causados pelo desmatamento desenfreado. A terra erodida, arrastada para o leito dos rios, e a já então visível compactação dos solos eram motivos de preocupação. Essa era a realidade na Fazenda Rhenânia, em Rolândia, na região Norte, onde o plantio direto paranaense começou.

O catarinense de Rio do Sul, Herbert Bartz, lembra bem dos problemas enfrentados nas terras de 120 alqueires da família, que arrendou do próprio pai em 1968, motivo de sua mudança para Rolândia. Apoiado pela multinacional ICI, foi buscar soluções técnicas e importar implementos da Inglaterra e dos Estados Unidos que, desconhecidos por aqui, não atraíram os possíveis interessados na compra das suas máquinas e implementos para o pagamento de dívidas no Banco do Brasil, decorrentes da quebra de safra de trigo, no inverno de 1972.

Na falta dos equipamentos convencionais, Herbert Bartz usou o que sobrou e ousou, entrou no cultivo mínimo. Daí, sofreu as conseqüências, perdendo em 73/74 quase 40% da produção pela falta de controle das plantas invasoras, do maquinário insuficiente e precário, da inexistência de assistência técnica especializada em plantio direto e voltada ao pacote tecnológico do plantio convencional, dos preços proibitivos dos insumos e da tecnologia inadequada de aplicação de herbicidas que reduzia a eficiência do princípio ativo em até 50%.

Mesmo assim, servia de referência, tanto para Bráulio Barbosa Ferraz, da Fazenda das Antas, de Andirá. Ferraz recebia em 1973, juntamente com o agrônomo gerente Dirceu Bonassin, orientação gratuita durante as inúmeras e improvisadas viagens nas regiões agrícolas do Sul do País.

Paralelamente aos acertos e à superação das dificuldades do plantio direto de Herbert Bartz, os produtores rurais de Mauá da Serra viviam, em 1974, o drama provocado pela topografia e erosividade do solo de formação mista. Sérgio Higashibara lembra do procedimento de cultivo com máquinas pesadas tipo grades rome e niveladora, que dificultava o preparo do plantio, entupindo as curvas de nível e tornando o campo uma lavoura de tabuleiros.

A saída emergencial foi buscar tecnologia de menor movimentação do solo, encontrada no plantio direto, que em 1988 já ocupava 100% das áreas agrícolas do município. Para manutenção dessa conquista e na constante busca de novos conhecimentos, 14 produtores rurais integrantes dos municípios de Tamarana, Marilândia do Sul e Faxinal, centrados em Mauá da Serra, constituíram o Grupo de Desenvolvimento Tecnológico, que atualmente conta com uma comissão organizadora para comemorar em 2004 os 30 anos de plantio direto daquela região.

Na convergência histórica, a extensão rural oficial passa na década de 80 contemplando ações na difusão da mecanização agrícola na pequena propriedade familiar, dando ênfase à tração animal e aos cultivos de movimentação mínima dos solos, sob a coordenação estadual do extensionista Antoninho Carlos Maurina, da então Acarpa.

Naquela época eram aguardadas também as respostas científicas do Instituto Agronômico do Paraná, que desenvolvia linhas de pesquisas para conservação dos solos, dentre elas a de cobertura verde dos solos, com apoio mantido pelo convênio da agência alemã GTZ. No campo, as primeiras demandas atendidas recaíam sobre o controle da erosão em bacias hidrográficas, rompendo as divisas das estreitas e compridas propriedades rurais, a readequação de estradas rurais, dentre tantas outras práticas conservacionistas.

O cenário da agricultura brasileira em 1994 era bastante crítico, sem subsídios, e total falta de recursos a investimentos, época em que o plantio direto passou das questões da melhoria da produção para garantia de sobrevivência do agricultor no campo.

A pouca difusão da tecnologia de plantio direto, a falta de equipamentos específicos com a necessária adequação do maquinário agrícola para a pequena propriedade, os problemas com a erosão, a produtividade e a grande receptividade do agricultor Cláudio D´Agostini, foram decisivos para a realização da 1ª Expotécnica. A iniciativa da equipe extensionista da região de Apucarana, articulada com parceiros interessados, resultou no primeiro evento em Sabáudia.

O esforço em implantar o novo sistema de cultivo na palhada torna o município, a partir de 1998, referência conservacionista por ter plantio direto em 100% de seu solo agrícola. E a Expotência, responsável em ampliar o uso do sistema de plantio direto na região Norte, vira atração nacional ao realizar anualmente novas propostas de tecnologia em ação, promovendo exposição estática, demonstrações dinâmicas, visitas em unidades expositivas didáticas de diversificação agrícola e em canteiros experimentais de cultivos de grãos e monitoramentos de doenças , além das dezenas de debates técnico-científicos, conduzidas por empresas oficiais e privadas.

Fazendo mais com muito menos

A função social do plantio direto na palha é fundamentada pelas considerações animadas e irreverentes de Herbert Bartz, que desfia um rol de bons atributos ao sistema, e garante que “até a lavagem da roupa suja de poeira vermelha deixa de fazer parte das atribuições da esposa do agricultor”.

Entre as vantagens por ele citadas estão a economia proporcionada pela redução da movimentação do trator na terra agricultável com a eliminação de equipamentos de preparo do solo utilizados no sistema convencional. Essas vantagens reduzem os custos tanto da grande como da pequena propriedade e da quilometragem, poupando combustível, evitando desgaste das máquinas e equipamentos e liberando a mão-de-obra utilizada para outros afazeres de trabalho ou de lazer.

Surgido como proposta elitista, o plantio direto era então inacessível para a pequena propriedade, destaca Nelson Harger, ao lembrar que as máquinas eram grandes, tracionadas por tratores de alta potência, fazendo com que o pequeno produtor se sentisse fora do processo.

A aproximação ocorreu com as demonstrações de máquinas menores em eventos técnicos de campo. Contribuiu também na efetivação do plantio direto na palha a iniciativa de municípios, como Missal, da região de Toledo, que desenvolveu a integração da comunidade rural, com a tecnologia, a assistência técnica presente e as prefeituras, todos voltados na agregação de renda do porco, do gado, do frango e do leite. “Um sistema que tem alcance que a gente nem imagina, dando mais tempo prá pensar”, considera Herbert Bartz.

Ricardo Ralisch resgata lembranças das viagens acadêmicas realizadas no Sudoeste do Paraná, Santa Catarina e Norte do Rio Grande do Sul para conhecimento do sistema na agricultura familiar. Garante que o plantio direto mudou o panorama rural, pela redução da jornada de trabalho e do uso da mão-de-obra, permitindo que os filhos não perdessem mais aulas na escola e liberando a mulher para novas atividades econômicas de transformação artesanal de alimentos e agroindustriais na comunidade e na cidade. Com isso, estimulou o aumento na freqüência das reuniões familiares, participadas pelos próprios membros que folgavam das tarefas tradicionais do preparo da terra para cultivo.

Preservação ambiental

A preservação ambiental é o estágio alcançado hoje pelos produtores da região de Mauá da Serra, satisfeitos com os retornos econômicos de produção e produtividade proporcionados pelo plantio direto. “Superamos o uso excessivo de calcário no sistema convencional, que estava inviabilizando a produção de trigo e forrageiras de inverno. Isto fez com que adotássemos a rotação de cultura, optando pelo cultivo obrigatório do milho. E agora perseguimos o caminho da sustentabilidade nos preocupando na recuperação da mata ciliar das margens dos nossos rios”, afirma Sérgio Higashibara.

Essa proposta valida e mantém o interesse do produtor no plantio direto, diz Herbert Bartz, lembrando que a falta de novas metas desestimula o interesse das pessoas e leva o falecimento de movimentos, tais como o do Amigos da Terra, constituído em 1981 na região de Rolândia.

“O sistema tem que estar assentado no tripé de ser vantajoso ambientalmente, interessante economicamente e possível de administrar o menos que é mais fácil do que os problemas causados pelo uso do mais. É o caso do excesso de gordura no corpo que é mais difícil tirar do organismo do que colocar”, comenta Herbert Bartz, ao destacar os problemas que enfrentou em 83/84 pelo excesso de matéria orgânica no solo, quando resolveu criar búfalos como solução de acabar com o aumento de população das lesmas e centopéias.

Durante a 10ª Expotécnica de Sabáudia, serão realizadas atividades de motivação para que os produtores rurais adotem o plantio direto na palha. Uma delas será no Sítio São José, de propriedade de Cláudio D´Agostini, comunidade do Km 21, onde a programação dos dias 7 e 8 de agosto, contempla, inclusive, a valorização dos agricultores pioneiros e incentivadores da tecnologia, através de homenagens nos níveis nacional, regional e local.

Evento promovido pelo governo do Paraná, através da Secretaria da Agricultura e do Abastecimento, Programa Paraná 12 Meses, Emater-Paraná, Prefeitura de Sabáudia, Iapar, Embrapa-Soja, Corol, com apoio do Banco do Brasil, Coodetec, UEL, dentre outras empresas oficiais e privadas que atuam no plantio direto na palha, incluindo a diversificação agrícola. A inscrição de participação é gratuita e pode ser feita no próprio local ou pelo telefone (43)422-8644, embora o Comitê Vida e Dignidade de Sabáudia pede aos visitantes que tragam e doem 1 quilo de alimento não perecível.