Apesar de estar situada na última fronteira agrícola do mundo e de possuir nos últimos anos boas taxas de crescimento econômico impulsionadas pela exploração das riquezas minerais, em especial o petróleo, a Angola é um dos focos de preocupação do Fundo das Nações Unidas para a Alimentação (FAO), no que tange a questão da insegurança alimentar. Isso porque falta praticamente tudo (de regulamentação fundiária ao acesso às tecnologias e ao maquinário) para o desenvolvimento da produção. Prova disso, é a média de produtividade do milho branco, entre 600 e 700 quilos por hectare cultivado, enquanto no Paraná, as taxas de produtividade de cada hectare plantado beira seis mil quilos. Para os angolanos, o milho branco entra na base da alimentação. Por conta de todo esse contexto, o Brasil é um dos países que mais coopera com a FAO para promover o desenvolvimento rural em locais com potencial agrícola, mas que por razões diversas, ainda realiza a atividade de maneira precária. E nessa força-tarefa, o Paraná também participa, fornecendo conhecimento e profissionais como o ex-secretário da agricultura, Valter Bianchini, que foi convidado pela FAO para integrar um grupo de trabalho na Angola.

Segundo Bianchini, que possui doutorado em Meio Ambiente e Desenvolvimento pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), apesar da Angola viver um acelerado processo de urbanização por conta da exploração mineral, o país continua com um modelo agrícola de subsistência, onde a regularização fundiária ainda está no papel.  “A agricultura é precária, mas tem muito potencial. E essa viagem também teve por objetivo mostrar que é possível em uma perspectiva de médio prazo”, explica Bianchini.

Nesse sentido, ele conta que apresentou algumas das medidas adotadas pelo Brasil e pelo Paraná, que poderiam ser replicadas na África: um trabalho intenso de legalização das terras, hoje em poder do estado, para dar segurança jurídica e viabilizar políticas de microcréditos para os produtores e o incentivo à agricultura familiar em harmonia com o desenvolvimento da agricultura comercial. “O Brasil mostra que é possível a boa convivência das duas agriculturas e, no caso angolano, isso permitiria avanços tanto na segurança alimentar, quanto na diversificação da economia da Angola”, aponta.

De acordo com Bianchini, na Angola há 1,6 milhão de pequenas propriedades rurais (entre um e 13 hectares de área). Atualmente, essas terras não garantem nem a sobrevivência das famílias que nela trabalham. Pela experiência do ex-secretário de agricultura do Paraná, ao viabilizar um programa de incentivo a agricultura familiar, tais propriedades produziriam para os responsáveis pelo cultivo e seus vizinhos.

Em relação à agricultura de larga escala, Bianchini diz que o capital estrangeiro que já está no país, com vários empresários chineses e até brasileiros realizando obras de infraestrutura, também poderia financiar a modernização da produção agrícola na Angola. “Faz pouco tempo que eles começaram a fazer uso da tração animal na agricultura. Há muito para se fazer, mas o mundo todo reconhece na África a última fronteira agrícola, ou seja, o último endereço onde se pode expandir a área de cultivo para alimentar o mundo”, analisa Bianchini.