Um problema crônico para quem trabalha com produção de alimentos orgânicos (livres de agentes químicos) é a falta de um lugar específico para vender seus produtos. Exceto por algumas feiras, os agricultores são obrigados a recorrer aos chamados atravessadores, que fazem a ponte com os mercados e centros de venda. O resultado disto é que a margem de lucro ainda não é a ideal. Porém, essa situação está prestes a mudar. A Secretaria da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior (Seti), por meio de uma ideia que surgiu na Secretaria de Agricultura de São José dos Pinhais, vai destinar espaços em algumas cidades paranaenses para a comercialização regional, nacional e internacional dos produtos orgânicos e ainda fazer o rastreamento da produção, da origem ao produtor final. Por enquanto, a meta inicial é de trabalhar com frutas, legumes e verduras, contudo, mais para frente o centro deve expandir e criar espaços para comercialização de carne orgânica, derivados de leite orgânicos, entre outros.

De acordo com o secretário Nildo José Lübke, o projeto que prevê a criação destes espaços está mais adiantado em São José dos Pinhais, que deve estar funcionando até o final do ano. O projeto prevê a revitalização dos antigos silos de armazenagem que pertenciam a Cooperativa de Laticínios de Curitiba (Clac), cujo direito de cessão pertence ao Parque de Tecnologia Social. “Queremos fazer neste local uma espécie de Ceasa de orgânicos. Face às dificuldades destes produtores, surgiu o interesse em dar a eles uma oportunidade como esta”, conta. Lübke diz que esta medida pode significar um aumento na produção de orgânicos. “Acredito que isto vai incentivar os produtores a aumentar a área de produção, pois estou confiante que o projeto vai dar certo. Aumentando os produtos, os consumidores devem aumentar e, em contrapartida, os preços tendem a cair. O orgânico só não é mais consumido porque a variação de preço com as olericulturas convencionais ainda é grande. Queremos também que o preço seja mais acessível à população com renda mais baixa”, informa.

Para garantir que o consumidor esteja realmente comprando um alimento orgânico, um programa desenvolvido pelo Instituto de Tecnologia do Paraná (Tecpar) vai certificar e rastrear os produtos. “Acredito que isso é uma medida eficaz e interessante, pois vamos ver se o produtor está realmente trabalhando sem usar defensivos agrícolas. Assim, o consumidor poderá saber o que houve com o alimento, desde a sua origem até o destino final. O software é semelhante ao desenvolvido para acompanhar gado, que foi um grande sucesso”, revela.

lübke: local será transformado em “Ceasa de orgânicos”.

Outra fase do projeto que deve iniciar em um segundo momento é o de exportar os orgânicos. Por meio do Programa de Extensão Industrial Exportadora (PEIEx) do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC), os agricultores serão capacitados e qualificados para atender as exigências do mercado exterior. “O potencial para exportar estes alimentos é enorme. Países como Estados Unidos, México, Espanha e Portugal costumam dar muito valor aos orgânicos. Com as técnicas certas para produzir e acomodar os produtos, os agricultores terão uma mina de ouro em suas mãos. No Brasil, os mercados de Curitiba, São Paulo, Rio de Janeiro, Florianópolis e Porto Alegre também são muito fortes e pagam bem pelos orgânicos”, avalia Lübke.

Para o agricultor Luiz Cláudio da Rocha, a criação deste espaço é a esperança de que seus produtos possam ,ter mais visibilidade. “Essa ideia é ótimo e vai de encontro com nossos interesses. Acredito que ficará mais fácil de vender a produção”, avalia. Já o produtor Massatoshi Shiono, o fato de acabar com o atravessador pode resultar em uma renda maior. “Acredito que ficaria mais fácil para negociar a partir da instalação deste centro. Acredito que esse é o caminho certo a seguir”, salienta.

Município é o maior produtor

A cidade de São José dos Pinhais, na Região Metropolitana de Curitiba (RMC), é a maior produtora de olericulturas orgânicas do Paraná. São cerca de 70 agricultores que, por ano, produzem de sete a oito mil toneladas de repolho, beterraba, couve, morango, entre outras.

O secretário de agricultura do município, Pedro Persegona Filho, conta que não entendia o porquê de não ter espaço para venda dos orgânicos. “Desde que assumi a secretaria, em dezembro do ano passado, vinha esta cobrança da população. Vi que o mercado para este tipo de alimento é grande e começamos a desenvolver o projeto Ilha Verde. A ideia acabou chamando a atenção dos técnicos da Seti e agora vai se espalhar por outras cidades, como Londrina, Maringá e Cascavel. Também queremos monitorar o preço destes produtos, fazendo com que não sejam superior a 10% do convencional, para que todos possam ter acesso a um alimento mais saudável”, diz ele.

Dos 70 produtores, 15 já possuem certificação, enquanto o restante está em vias de obtê-la. “Em parceria com o Tecpar e o Emater, estamos certificando as propriedades. Para o agricultor que tem interesse em modificar a propriedade para produzir orgânicos, nós orientamos em todas as etapas, com formação e informação técnica”. (FL)