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Lavoura de soja ainda é a mais prejudicada pela ausência de
chuva em todo o Sul.

Com a produtividade afetada pela forte seca no Sul do País e em parte do Mato Grosso do Sul e da Bahia, a atual safra de grãos encolherá pelo menos 8,5 milhões de toneladas em relação à estimativa anterior de 131,9 milhões de toneladas, feita em dezembro de 2004. Assim, a safra deste ano deve somar 123,4 milhões de toneladas, ou 3,6% acima das 119,15 milhões de toneladas da colheita passada, segundo previsão divulgada pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab).

As perdas provocadas pela estiagem ainda não foram totalmente calculadas pelo governo, mas devem ser maiores que a estimativa de 6,5%. Em outubro de 2004, a Conab previa uma elevação entre 9,6 milhões e 11,7 milhões de toneladas na safra. Agora, esse aumento não passará de 4,2 milhões de toneladas. ?Houve uma quebra de expectativa de produção, mas não há risco de termos uma safra menor que em 2004?, afirmou Jacinto Ferreira, presidente da Conab. ?A seca foi mais forte que o previsto, mas as perdas já estão consolidadas.?

A seca prejudicou sobretudo as lavouras de milho, soja, feijão e sorgo. O Rio Grande do Sul foi a região mais atingida. A produção no estado cairá 6,7% no arroz, 45% no feijão, 1,7% no trigo e 38% no milho. O caso do milho é, aliás, o mais grave em todo o País. Principal matéria-prima da ração usada para a alimentação de aves e suínos, principalmente, o grão terá produção de 4,1 milhões a 3,1 milhões de toneladas menor – entre 7,5% a 9,5%. A colheita total não passará de 39,03 milhões de toneladas considerando a produção da safra de verão e da safrinha.

Pior: os estoques de passagem estão baixos – caíram de 4,9 milhões para 2,15 milhões de toneladas – e o governo ainda não tem recursos para recompô-los. Isso indica que haverá impacto no preços do milho e que pode haver risco para o abastecimento interno e até mesmo para os índices de inflação. A produtividade foi baixa. Recuou 1,8% no Paraná; 4,7% em Goiás; 4,9% em Santa Catarina; e 54% no Rio Grande do Sul.

A produção de soja deve oscilar entre uma queda de 7% sobre a previsão anterior ou crescimento de 14,6% em relação à safra passada, que havia tido uma forte quebra. No máximo, o Brasil produzirá 57,02 milhões de toneladas, bem abaixo dos 61,4 milhões de toneladas esperados em dezembro, segundo a Conab.

Dificuldade de escoamento vai continuar

Nem mesmo a quebra em cerca de dez milhões de toneladas da safra de soja, no Sul do País e em parte do Mato Grosso do Sul, poderá diminuir a dificuldade de escoamento da safra deste ano, estimou o diretor-presidente da MB Associados, José Roberto Mendonça de Barros. ?Vamos ter o mesmo problema que no ano passado ou algo até pior?, afirmou.

Segundo ele, no último ano, houve uma piora das rodovias brasileiras em relação ao ano anterior, ocasionada essencialmente pela falta de investimentos federais no setor. ?A queda da ponte entre Curitiba e São Paulo é um exemplo dessa falta de recursos, provocando mais congestionamentos na rodovia (Régis Bittencourt) e aumentando o preço do frete em 10%?, comentou.

Mendonça de Barros disse que a maior parte dos investimentos em curso em portos do Brasil ainda sofre atraso e, também por este motivo, o País sofrerá sérias restrições para escoar a safra agrícola.

A consultoria MB Associados estima que a seca na região Sul do País, que atinge a totalidade do Estado do Rio Grande do Sul, parte dos estados de Santa Catarina, Paraná e Mato Grosso do Sul e também parte do Paraguai e Argentina, resultará numa quebra de 10 milhões de toneladas de soja na safra deste ano. ?A indicação que temos até o momento é de que a situação no Sul é desastrosa, com extensão até o Mato Grosso do Sul?, afirmou Mendonça de Barros.

Segundo ele, há possibilidades reais de o preço da commodity passar por recuperação no curto prazo. Além da quebra da safra brasileira, Argentina e Paraguai também terão reduções, o que já levou o mercado a elevar a cotação do grão em US$ 1/saca no mês passado. Além disso, a última estimativa divulgada pelo Departamento de Agricultura dos EUA (USDA) indica diminuição da safra norte-americana de soja de 83 milhões de toneladas para 78 milhões de toneladas.

?Ao mesmo tempo, a China segue em rota de crescimento, pressionando o consumo. Como o preço da soja segue muito baixo, há indicações de que teremos uma melhora da remuneração?, observou. ?No fim de março, teremos uma nova estimativa da USDA, melhor balizada, e teremos condições de avaliar uma possibilidade mais concreta de o preço evoluir.?