O frio polar que atinge a Argentina desde a semana passada diminuiu um pouco nas últimas horas. Mas o alívio no termômetro ainda não teve reflexo na demanda elevada de gás e de eletricidade, expondo mais uma vez a crise energética no país. Os cortes no fornecimento de gás, que antes se limitavam às indústrias, agora afetam residências com gás encanado, botijões econômicos para a classe econômica menos favorecida, postos de combustíveis que vendem gás veicular e indústrias do Uruguai.

Para uma demanda de 145 milhões de metros cúbicos por dia (m³/d) de gás durante os dias mais frios, a Argentina possui capacidade para 122 milhões m³/d. Para garantir o fornecimento de gás à população, o governo de Cristina Kirchner interrompe o serviço para cerca de 300 grandes indústrias. Contudo, o esforço já não é suficiente para resguardar a população.

O fornecimento de gás residencial tem apresentado problemas de pressão. Com menor volume de gás disponível, a injeção do combustível nas redes de distribuição também é menor e impede um bom funcionamento das válvulas e aparelhos de aquecimento. Portanto, os aquecedores residenciais não conseguem cumprir suas funções regulares.

Mas a situação é pior para os mais pobres. O defensor do Povo da Nação, Anselmo Sella, equivalente ao ouvidor-geral da República, reivindicou à Secretaria de Energia e à Secretária de Comércio Interior a intervenção no mercado de gás engarrafado de 10, 12 e 15 quilos. Segundo ele, apenas 20% da demanda dos botijões de gás está sendo atendida. A escassez afeta milhares de famílias pobres que dependem desse gás para cozinhar e se aquecer. A denúncia de Sella também afirma que o botijão que deveria custar 16 pesos (R$ 7,29) chega a ser vendido por 60 pesos (R$ 27,33). O presidente da Câmara de Estações de Serviço de Salta, Ricardo Stella, por sua vez, denunciou que também há falta de gás veicular.

O déficit energético custa aos cofres públicos US$ 2,3 bilhões em gastos com importação de energia elétrica do Brasil e Paraguai (US$ 400 milhões); gás natural liquefeito de Trinidad e Tobago (US$ 500 milhões); gás natural da Bolívia (US$ 600 milhões); e óleo diesel e óleo combustível da Venezuela e outros países (US$ 800 milhões).