O missal já é um velho conhecido dos economistas: conforme se vai às alturas com a taxa básica de juros, a fim de controlar a inflação, o crédito passa a rarear no mercado, diminuindo o dinheiro no bolso e fazendo esfriar as vendas do varejo. Naturalmente, isso vale para a telefonia móvel – e, de repente, aquele velho celular no bolso parece perfeitamente capaz de aguentar mais alguns anos de labuta.

Entretanto, onde grande parte da indústria talvez enxergue uma ressaca inevitável, sem dúvida há quem aproveite os ventos fracos para vender alguns remos. Há atualmente pelo menos 15 sites dedicados à compra e venda de produtos seminovos no Brasil. São lojas especializadas em vestuário, em calçados, em objetos de decoração, em artigos infantis… E, é claro, há também celulares.

“Nós estudamos muito antes de iniciar as operações”, disse Diego Demonti, gerente comercial da loja online Balão da Informática. Há 20 anos no mercado, a varejista incluiu recentemente toda uma seção dedicada aos telefones seminovos. Hoje, o espaço responde por 15% das vendas mensais do site. “Nós conseguimos atender clientes que, de outra forma, não conseguiriam comprar um aparelho com uma boa configuração.”

Para Demonti, a crise econômica não apenas favoreceu o mercado de segunda mão como também atuou para a formação de uma nova cultura de consumo em território tupiniquim. “O Brasil não é um país que tradicionalmente compra seminovos em abundância”, afirma o executivo — ressaltando que, nos EUA, os usados chegam a representar 30% do total vendido em algumas classes de eletrônicos.

O seminovo como opção

Embora o quadro recessivo possa ser colocado como o estopim para o crescimento do mercado de usados, há quem veja na aquisição de um seminovo a escolha mais racional. Há seis meses com um Moto X Style, da Motorola, o especialista em logística Adailton Bonfim não se arrepende de ter adquirido o aparelho de segunda mão.

“Nas lojas, o mesmo aparelho era vendido por R$ 300 ou até por R$ 400 mais caro”, disse Bonfim, acrescentando que o Moto X Style é o mais recente em uma sucessão de aparelhos seminovos — antes houve um LG Nexus 4 e um Moto X de segunda geração. “Se você comprar no lançamento, você se quebra.” Ele reforça, entretanto, que é preciso ter calma antes de comprar. “Eu levo duas ou três semanas para comprar”, garante. Para ele, é essencial buscar aparelhos de boa procedência, preferencialmente com garantia.

Garantia pode ser insuficiente

Mas o período de cobertura normalmente oferecido pelas lojas de seminovos pode nem sempre ser suficiente para evitar alguma dor de cabeça. Para Felipe Gomes de Almeida, a frustração com um LG G3 apareceu logo de cara, com a baixa autonomia da bateria. “Não durava nem duas horas”, contou o estudante.

E a situação ainda piorou. “No início do ano, eu resolvia uns problemas de documentação escolar, e ele [o LG G3] me deixou na mão: a tela escureceu e não ligou mais.” Com a garantia de três meses esgotada, a solução foi aposentar prematuramente o aparelho. “Agora ele está encostado na gaveta, esperando pelo conserto”, lamentou.

Ao correr atrás para descobrir o que havia ocorrido, entretanto, ele descobriu que o “mal súbito” era um problema frequente do modelo da LG. Mas o receio quanto aos seminovos persistiu. “A loja foi muito atenciosa, mas o que me faz não querer comprar mais nada lá é a garantia curta”, explica.

De olho na procedência

A incerteza quanto à duração do investimento ainda aparece entre os principais fatores que desencorajam o consumidor na hora de adquirir um celular usado. Em resposta a isso, o próprio amadurecimento do mercado tem dado conta de oferecer ao consumidor garantias análogas àquelas disponíveis na venda de produtos novos.

O empresário Eduardo Henrique Senff, por exemplo, optou por uma loja especializada para adquirir seu iPhone 6, com especial atenção ao período de cobertura. “Dei o meu [celular anterior] na troca, paguei a diferença e ganhei seis meses de garantia”, conta Senff, que recomenda a experiência. “O aparelho está impecável”, garante. Em razão da diferença de preços, ainda foi possível adquirir um modelo com maior memória interna.

Para Demonti, é nessa relação de custo-benefício que reside a principal vantagem competitiva do nicho de seminovos. “Às vezes, pelo mesmo preço que compraria determinado aparelho novo, [o consumidor] consegue algo muito superior.”

Usados com avaliação profissional

Além de garantias mais atraentes, o fortalecimento do mercado de seminovos no Brasil também tem buscado fôlego na instalação de novos processos para avaliar e revender celulares de segunda mão. E isso passa por certa compartimentalização de serviços. “Existem, atualmente, distribuidoras especializadas em avaliar e repassar os aparelhos usados”, explica Demonti.

Ele diz que é comum que a captação de modelos para revenda seja feita de forma indireta entre loja e pessoa física, sobretudo em varejistas de maior porte. “[As distribuidoras] repassam unidades que eventualmente foram vendidas, mas que apresentaram algum defeito, ou ainda aparelhos que não passaram em algum quesito dos testes de qualidade.”

Classificações de celulares

Ao final da avaliação, a distribuidora confere então um selo ao aparelho que indica as suas condições gerais. Demonti garante que essa classificação alcança apenas a parte estética, já que nenhum aparelho com problemas operacionais é repassado para o varejo. “Se for detectado qualquer problema, a própria distribuidora efetua o recondicionamento.”

Embora os termos possam variar de avaliadora para avaliadora, é comum que existam três níveis de qualidade. No caso dos aparelhos que chegam à Balão da Informática, por exemplo, há os selos:

– Diamond: aparelho em condições impecáveis, comparável a um modelo novo; 

– Gold: detalhes estéticos menores, como pequenos riscos na carcaça; e 

– Silver: celulares com marcas mais evidentes (nada que comprometa sua funcionalidade). 

Para que sejam submetidos aos testes, entretanto, são levados em conta critérios que vão da marca ao tempo de uso e ao período transcorrido desde o seu lançamento no mercado. “Os celulares repassados normalmente têm de seis meses a um ano de utilização”, explicou Demonti.A despeito da avaliação, entretanto, o executivo afirma que todos os produtos que deixam a loja contam com duas garantias. Além dos sete dias fornecidos pela loja, há três meses de cobertura. “Em caso de defeito, o cliente pode entrar em contato com a loja ou mesmo diretamente com a distribuidora.”

Os aparelhos com mais saída, segundo ele, são os da Apple e da Samsung, sobretudo os modelos mais recentes. “Se você pegar um iPhone mais antigo, ele já tem pouca saída”, diz o varejista, apontando para o “descarte natural” do próprio mercado.

Expansão do modelo esbarra em dispositivos legais

Mesmo que o embalo atual da venda de usados no Brasil tenha surgido por conta do período de crise, o aumento exponencial de lojas (físicas e virtuais) dedicadas à comercialização e à troca de seminovos parece indicar um padrão que veio para ficar. Entretanto, para além de uma reelaboração dos padrões de consumo do brasileiro, há também questões legais que vão de encontro a novas expansões do modelo.

A fim de proteger o mercado doméstico, por exemplo, as leis brasileiras impedem que se traga produtos recondicionados de fora. “Por uma questão de protecionismo, o Brasil não permite importação de recondicionados”, diz Demonti. De acordo com o executivo, mesmo multinacionais que atuam por aqui e em outros países precisam se limitar a apenas aparelhos nacionalizados. Como consequência, fica vedada a entrada de aparelhos que poderiam desembarcar aqui com preços competitivos. “Com uma revisão [nessa lei], o nosso mercado mudaria.”

Não obstante, o desempenho crescente dos negócios de usados mostra que o gosto do brasileiro acomodou bem a proposta dos itens de segunda mão — mesmo para produtos mais sensíveis e caros, como os celulares. “Meu próximo telefone com certeza será um seminovo”, garante Bonfim. Agora é esperar que velhas regras e novos costumes entrem em sintonia.