Brasília (AE) – O governo decidiu bancar o financiamento da próxima safra agrícola, já que as tradings e as indústrias processadoras não estão querendo liberar recursos. Ontem, o Ministério da Agricultura anunciou que o Banco do Brasil irá liberar R$ 5 bilhões para os agricultores em setembro. “É a maior oferta de crédito para a agricultura num único mês”, afirmou o gerente-executivo do agronegócio do banco, José Carlos Vaz. Para garantir o dinheiro, o governo negociou com o Banco do Brasil a antecipação das liberações.

“O quadro circunstancial é de menor oferta de crédito. As tradings estão muito resistentes em financiar a agricultura”, explicou o secretário de Política Agrícola do ministério, Ivan Wedekin. Do total, R$ 4,124 bilhões serão destinados para custeio das lavouras, R$ 396 milhões para investimento e outros R$ 480 milhões para apoio à comercialização.

A resistência privada vem do fato de muitos produtores de soja, principalmente de Goiás, terem rompido contratos futuros para a entrega da oleaginosa na safra 2003/04. Os contratos foram fechados, no período pré-plantio, a um determinado preço, mas os produtores romperam os acordos firmados depois que as cotações internacionais, no momento da colheita, tiveram alta expressiva. Outro fator que fez o ministério pedir a antecipação das liberações, explicou Wedekin, foi a queda “além do esperado” dos preços agrícolas.

O secretário disse ainda que a maior parte dos R$ 5 bilhões será oferecida aos agricultores com taxa de juro fixa do crédito rural, de 8,75% ao ano. Ele acrescentou que se os produtores fossem buscar recursos no mercado livre, o encargo financeiro poderia chegar a 25% ao ano.

A previsão do BB é liberar, nos três primeiros meses do ano-safra, R$ 7,6 bilhões para a agricultura, R$ 1 bilhão acima do liberado em igual período da safra 2003/04. O ano-agrícola começou em julho. No ano-safra, o governo prevê liberação de R$ 46,5 bilhões para a agricultura empresarial e familiar. Desse total, o banco deve liberar R$ 25,5 bilhões, incremento de 24% em relação à safra 2003/04. Do total, a instituição vai oferecer R$ 4,1 bilhões para a agricultura familiar e R$ 21,4 bilhões para o segmento empresarial. “Por enquanto, ainda trabalhamos com a estimativa inicial, mas as liberações podem ficar acima do previsto”, afirmou Wedekin.

Em julho foram liberados R$ 2,285 bilhões em crédito rural para custeio e investimento. Esse montante é 16% inferior aos R$ 2,73 bilhões de igual mês da safra 2003/04. Wedekin avaliou que a queda não preocupa, pois as contratações devem aumentar nos próximos meses. Do total liberado, R$ 648 milhões foram para programas de investimentos, um crescimento de 26%.

O secretário confirmou que os técnicos da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) irão a campo no começo de outubro para avaliar a intenção de plantio na safra 2004/05. A expectativa é de crescimento na área plantada de soja, milho e algodão, disse ele, sem citar volumes.