Cachaça, pinga, aguardente, água que passarinho não bebe, caninha. Existem diversos nomes para se falar da bebida mais popular do Brasil. Produzida a partir da fermentação da cana-de-açúcar, a cachaça (designação correta da bebida) paranaense responde por cerca de 6% da produção nacional, com cerca de mil unidades produtoras espalhadas por todo o Estado. As regiões com maior destaque na fabricação da bebida são o litoral, principalmente em Morretes, com sua história e tradição, o oeste e o sudoeste, onde a atividade vem se expandindo.

De acordo com o agrônomo e professor da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Agenor Maccari Júnior, o Estado se destaca na produção de cachaça por ter algumas características particulares. “Embora contribuamos com uma pequena fatia, o setor é forte. Aqui nós contamos com cooperativas de produtores com forte atuação no setor, o que dá uma certa diferenciação. Temos também regiões produtoras com características distintas, gerando produtos com “identidade regional” e ainda os produtores contam com certificação orgânica, um chamariz a mais para o produto”, avalia.

A qualidade é outro ponto positivo para a cachaça paranaense. Para Maccari Júnior, as cachaças paranaenses possuem qualidade equivalente a qualquer marca brasileira de cachaça, inclusive produtos que podem competir com qualquer bebida importada. “São cachaças com excelente sabor e aroma, com baixa acidez e preços acessíveis. Quanto à qualidade da bebida, merece destaque a diversidade dos produtos no mercado, como as já citadas características regionais, em que é possível detectar diferenças entre as regiões produtoras”, informa. Ele diz que estas diferenças estão associadas às características de clima, solo e processo. “Como exemplo de variação no processo, há diversas madeiras sendo usadas no envelhecimento da cachaça no Paraná e também vegetais como a cataia, o que acaba gerando produtos com atributos muito interessantes e individualidades”, comenta.

Recentemente houve um concurso em Curitiba para promover a qualidade e diversidade da cachaça do Paraná, fomentando a competição entre produtores na busca pela melhoria no processo de produção e no produto. “O objetivo deste concurso foi o de dar impulso a nossa cachaça. O evento foi realizado em duas etapas, uma de análises químicas no laboratório do Instituto de Tecnologia de Pernambuco (realizada no início de fevereiro) e a de análise sensorial no último dia 27, em Curitiba. Os resultados serão divulgados em março, em evento reunindo as cachaças paranaenses”, informa. Para o diretor-presidente da Associação de Cooperativas e Empresas Produtoras de Cachaça Artesanal de Alambique do Paraná (Aprocapar), Itamar Menegotto, foi uma ótima oportunidade de se divulgar a bebida. “Apesar de pouco conhecidas no cenário nacional, temos cachaças paranaenses com qualidade superior a dos uísques mais famosos. Produzimos uma bebida excelente, porém ainda pouco conhecida. É preciso mostrar que o Paraná possui produto capaz de competir com Minas Gerais e outros Estados que detêm maior fatia de mercado”, afirma.

Maior problema é a informalidade

Para o diretor-presidente da Aprocapar, o grande problema do setor hoje é a informalidade. Isso faz com que muitos produtores não apareçam nas estatísticas. “Muitos produtores trabalham em escala tão pequena que não entram nas estatísticas oficiais. São muitos, mas individualmente produzem pouco”, conta. Maccari Júnior corrobora com a afirmação e diz que isto prejudica o mercado, que é bem competitivo. “São muitos produtores, cerca de 30 mil alambiques e cinco mil marcas.

De todo modo, as emp,resas que investiram em seus alambiques estão se consolidando no mercado e ganhando espaço. Ainda é cedo para se falar em lucros, pois os investimentos são recentes, mas o setor está animado e as empresas paranaenses passaram a exportar seu produto, abrindo novos canais de venda. No mercado interno, a demanda cresce e a cachaça de qualidade está começando a ganhar espaço em locais sofisticados, está vencendo o preconceito. Temos que trabalhar para a cachaça ser valorizada”, afirma.

O mercado, segundo o agrônomo, ainda é basicamente regional, embora algumas marcas estejam sendo comercializadas em todo o país e haja ainda marcas paranaenses sendo exportadas, ganhando espaço e destaque no mercado externo. “Os produtores paranaenses, em sua maioria pequenos agricultores, estão investindo no cooperativismo e buscando ganhar mercado. Com produto de qualidade, o Estado
tem tudo para surpreender seus concorrentes e consumidores”, conclui. (FL)