O mercado de trabalho brasileiro registrou abertura líquida (contratações menos desligamentos) de 401,6 mil vagas em fevereiro, antes de restrições de atividades terem sido intensificadas em março para conter o avanço da Covid-19. O Ministério da Economia já dá como certo o impacto das ações de isolamento nos dados a serem vistos nas próximas divulgações.

O resultado ficou acima do registrado em janeiro, (abertura de 258,1 mil postos de trabalho, com ajustes nos números para receber dados fora do prazo). Também ficou acima do mesmo período do ano passado (quando o saldo foi de 225,6 mil, também com ajustes).

Os dados são do Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados), divulgados nesta terça-feira (30) pelo Ministério da Economia e que abrange apenas contratos regidos pela CLT (Consolidação das Leis do Trabalho).

O saldo de fevereiro é resultado de 1,6 milhão de admissões e 1,2 milhão de desligamentos.​ Os números contam com nova metodologia desde janeiro de 2020, o que limita a comparação com anos anteriores.

Houve saldo positivo nos cinco setores, liderados por serviços (abertura de 173,5 mil postos). Em seguida, ficaram indústria (93,6 mil postos), comércio (68,1 mil), construção (43,4 mil) e agropecuária (23,1 mil).

As cinco regiões apresentaram saldo positivo em fevereiro, lideradas pelo Sudeste (criação de 203 mil postos). Em seguida, vieram Sul (105,1 mil), Nordeste (40,8 mil), Centro-Oeste (40,1 mil) e Norte (12,3 mil).

De acordo com o ministério, os números foram impulsionados por uma melhora na economia, por medidas do governo e também por um movimento sazonal em fevereiro –que tradicionalmente mostra melhora em serviços.

O ministro Paulo Guedes (Economia) disse que o mercado de trabalho formal está se recuperando em altíssima velocidade e que o país está no caminho certo da recuperação da atividade. Ele também voltou a defender a vacinação da população.

“Precisamos vacinar em massa para que o brasileiro informal, os quase 40 milhões de invisíveis, não fiquem nessa escolha cruel entre sair e ser abatido pelo vírus ou ficar em casa se ser abatido pela fome. Precisamos da vacinação em massa”, disse o ministro.

Bruno Imaizumi, economista da LCA Consultores, afirmou que os dados surpreenderam e que o setor de serviços foi beneficiado pelo baixo índice de isolamento social observado no país no primeiro bimestre mesmo em meio ao avanço da Covid.

“Só observamos um aumento expressivo nos indicadores de isolamento social em março, quando autoridades de diversas cidades importantes do país tiveram que adotar medidas mais restritivas de circulação de pessoas para diminuir a curva de contágio e aliviar pressões nos hospitais”, afirmou.

No curto prazo, segundo ele, o saldo de postos formais deve desacelerar. “As medidas adotadas com a finalidade de frear o avanço da Covid-19 possivelmente serão estendidas para o mês de abril e as sondagens de expectativas da FGV [Fundação Getulio Vargas] também apontam para uma desaceleração”, afirmou.

Por outro lado, o economista diz que os números devem ser ajudados pelo setor de agropecuária, que teve seu melhor desempenho na criação de vagas formais em 2020 e deve manter bom desempenho em 2021 na esteira de safras agrícolas recordes.

Para o ano, Imaizumi elevou sua projeção de saldo de postos formais, de 750 mil para cerca de 1 milhão. Ele se baseou nos dados observados até fevereiro, na perspectiva de avanço na vacinação e na nova rodada de auxílio emergencial.

Essa é a mesma estimativa do economista-chefe da Ativa Investimentos, Étore Sanchez. Ele afirma que os dados de fevereiro surpreenderam –com destaque para serviços e, especificamente, o segmento de alojamento e alimentação.

A atividade, uma das maios afetadas pela Covid-19 e pelas medidas de restrição, registrou contratações mesmo com o recrudescimento da pandemia –o que não deve se repetir em março, segundo ele.

Bruno Bianco, secretário especial de Previdência e Trabalho, afirmou que a nova fase de fechamento de atividades por causa do avanço da pandemia traz preocupações e que será natural ver impacto nos números do mercado de trabalho.

“Pode, sim, ter piora nos dados. É natural que tenha. Houve um fechamento [de atividades] mais expressivo. Isso nos preocupa enquanto gestores e brasileiros”, afirmou Bianco ao ser perguntado sobre o tema. “Certamente, teremos os números caindo e, mais do que tudo, pessoas com possibilidade de perder emprego. Essa é nossa luta, para que possamos evitar isso”, disse.

Para mitigar os impactos da crise nos números, a equipe econômica prepara a recriação do programa de manutenção de emprego. A medida foi lançada em 2020 e permite o corte de salário e jornada ou suspensão de contrato em troca de um benefício do governo ao trabalhador afetado.

A adesão ao programa foi encerrada no ano passado e a medida ainda não foi relançada porque o desenho proposto pelo Ministério da Economia foi barrado pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido).

A ideia era cortar recursos do seguro-desemprego para assegurar a permanência do trabalhador na empresa, o que transformaria a medida em uma espécie de “seguro-emprego”. Mas a ala política do governo convenceu Bolsonaro de que a medida poderia gerar críticas da opinião pública.

Por isso, o programa deve ser relançado por meio de crédito extraordinário –que fica fora do teto de gastos. Mas há insegurança jurídica na equipe econômica sobre a possibilidade de lançar o instrumento (que ficaria em torno de R$ 10 bilhões) antes de estarem concluídos os trâmites do Orçamento de 2021, que por sua vez está diante de um impasse jurídico para a sanção.

“Está demorando um pouco porque temos uma questão. Temos vários pontos fiscais a serem avaliados”, afirmou Bianco.

“Ainda que lancemos mão de crédito extraordinário, existe a preocupação de que não teremos a segurança necessária. Porque você poderia ter o espaço para fazer dentro do Orçamento e o crédito, constitucionalmente falando, está fora do Orçamento. E se não temos o Orçamento, isso cria uma insegurança para tudo isso”, disse o secretário.