O plantio da cana-de-açúcar, as cultivares mais adequadas a cada tipo de solo, industrialização, comercialização, aspectos de qualidade e padronizações são os assuntos que serão discutidos nesta segunda (23) e terça-feira (24), em Curitiba, no I Encontro Estadual de Produtores de Cachaça Artesanal. Os seminários devem reunir 100 produtores de todo o Paraná.

“O principal objetivo é ampliar a participação da cachaça paranaense em novos mercados”, diz o engenheiro agrônomo da Emater João Nishi. Segundo ele, a produção de cachaça é uma alternativa viável em pequenas propriedades rurais. “Uma das facilidades é o fato de os agricultores familiares conhecerem o processo produtivo e buscarem a qualidade”, acrescenta.

De acordo com Luís Damaso Gusi, coordenador do programa Fábrica do Agricultor, o produto artesanal possui sabor e aroma superiores ao industrial e a produção de cachaça de qualidade somada a um selo orgânico tem um grande potencial para exportação e comercialização interna. “A cachaça artesanal está deixando de ser considerada um produto de qualidade inferior, conquistando cada vez mais um público bastante exigente”, afirma.

Existem no Paraná cerca de 300 produtores de aguardente artesanal, concentrados principalmente nas regiões do Litoral, Oeste, Sudoeste e Norte Pioneiro. O clima e solo apropriados para a produção de cana-de-açúcar é, junto à infra-estrutura de exportação e proximidade com grandes mercados, um dos facilitadores para o setor.

Um levantamento da Codapar mostra que hoje os maiores problemas da produção artesanal são a informalidade, má apresentação do produto e tecnologia de produção inadequadas, resultado da crença em mitos e folclores sobre a bebida.

No Encontro Estadual de Produtores de Cachaça Artesanal, além de palestras sobre o tema, será criada uma associação e um consórcio de exportação de aguardente artesanal orgânica de qualidade. O encontro é uma realização do Sebrae, Secretaria da Agricultura e do Abastecimento, programa Fábrica do Agricultor, Paraná 12 Meses, Agência Regional de Comercialização, Codapar e Emater.

Mercado

A produção anual estimada de cachaça no Brasil é de 1,3 bilhão de litros, segundo a Associação Brasileira de Bebidas (Abrabe). Apenas 0,5% é exportado. A maioria das marcas que conquistou o mercado interno é produzida industrialmente. Depois do rum, da vodka e da tequila, é a cachaça que está ganhando espaço no mercado internacional de destilados. A caipirinha foi recentemente eleita o drink do século na Europa.

O produto artesanal possui características sensoriais superiores ao industrial; portanto, a produção de cachaça de qualidade, somada a um selo orgânico, constitui um grande potencial a ser explorado em função da demanda no mercado externo e na mudança de “status” que o produto vem adquirindo no Brasil.

Condições são excelentes

O Paraná possui condições excelentes agronômicas e climáticas para a produção agrícola da cana-de-açúcar e, conseqüentemente, o desenvolvimento da produção da cachaça artesanal, além de contar com infra-estrutura de exportação e proximidade aos grandes mercados internos. De um modo geral este produtores possuem os seguintes pontos de estrangulamento:

1) a produção da cachaça, não é a atividade principal da maioria dos agricultores identificados;

2) a grande maioria atua na informalidade, em meros mercados locais e não possui registro do seu produto;

3) a má apresentação do produto, quanto ao design de rótulos e embalagens é comum e nas unidades de produção práticas tecnológicas não recomendáveis, oriundas de “mitos e folclore”, contribuem para inferiorizar a qualidade final do produto.

Isto se explica principalmente pelas dificuldades de regularização sanitária e ambiental, pela elevada carga tributária e pelo fato de que esta atividade conta com grande parte dos fornecedores atuando na ilegalidade, fazendo com que o mercado seja abastecido com produtos de péssima qualidade e custo bastante reduzido.

Este fato dificulta muitos outros produtores que possuem potencial para crescimento e aqueles que já possuem um produto legalizado e de excelente qualidade, que acabam enfrentado uma concorrência desleal. A proposta de produzir cachaça de qualidade, passa necessariamente por uma questão mercadológica, que deve ser trabalhada paralelamente com a de produção.

Para isto, as entidades promotoras do evento, se unem ao segmento produtivo com foco nos seguintes pontos: ação conjunta das entidades parceiras nas suas áreas de competência; busca da diferenciação do produto paranaense; ações do Programa Fábrica do Agricultor, regularização das unidades, melhoria de design de rótulo e embalagem, linhas de crédito e fomento etc; agregar valor a produção; atingir mercados diferenciados; criar associação de produtores.