Brasília, Rio e São Paulo (AG)

– A enxurrada de captações de dólares no exterior trouxe alívio imediato para o câmbio, mas a médio prazo pode se transformar em nova crise, alertam economistas. Uma compilação feita pelo espanhol BBV Banco mostra que, dos cerca de US$ 5,5 bilhões emprestados neste primeiro trimestre, US$ 4,04 bilhões (ou 72,1% do total) terão de ser devolvidos em até 12 meses.

No primeiro trimestre de 2002, o País só havia captado US$ 1,5 bilhão, com prazo de vencimento de pelo menos dois anos.O deputado Delfim Netto (PP-SP), o mais contundente dos críticos, ressalta que a maior parte das captações têm sido feitas por bancos privados, que se aproveitam da diferença entre as taxas de juros no exterior e as que obtêm emprestando o dinheiro a clientes no Brasil. Esse fluxo de capitais, segundo Delfim, pode distorcer a taxa real de câmbio e afetar as operações no setor exportador.

“Nas últimas semanas, o risco-Brasil desabou e o capital financeiro de curto prazo iniciou seu retorno aproveitando-se das grandes margens de arbitragem dos juros. Temos de pensar seriamente sobre o que faremos. Deixar o câmbio à mercê desse tipo de capital pode ser apenas o anúncio de uma nova crise daqui a algum tempo”, afirmou ele em artigo publicado na semana passada.

O acúmulo de vencimentos a curto prazo também preocupa o economista Affonso Celso Pastore, ex-presidente do Banco Central (BC). Segundo ele, passado o período de escassez de crédito, seria natural que o capital mais volátil fosse o primeiro a retornar ao País. O desafio agora é convencer os investidores de que há segurança para que se mantenha o dinheiro por mais tempo. Essencialmente, está nas mãos do governo criar as condições para que o País atraia capital de longo prazo e pague o capital de curto prazo. E isso passa por uma política fiscal crível, cujo efeito será a redução do risco-Brasil.”

Diferentemente de Delfim, Pastore afirma que a atual volatilidade do câmbio é resultado mais da queda do risco-País do que do ingresso maciço de capitais de curto prazo. O economista sustenta que uma política fiscal eficiente tende a reduzir a volatilidade do risco-País, que chegou a quase 2.500 pontos-base, na época das eleições, e hoje está em torno de 900 pontos. E por tabela, anular as flutuações no mercado de câmbio. “Com isso, deixará de ser decisivo saber se o capital é ou não de longo prazo.”

Ex-diretor de Política Econômica do BC, o economista Sergio Werlang afirma que, apesar do risco intrínseco, o governo brasileiro não pode prescindir desses recursos. Segundo ele, o País ainda depende do fluxo de capitais externos para financiar seu balanço de pagamentos. “Não se abre mão desse dinheiro, ainda mais num cenário que aponta para redução do fluxo de investimentos diretos estrangeiros” diz Werlang, hoje diretor do Itaú.Werlang repudia medidas para dificultar a entrada de capital de curto prazo. Segundo ele, eventualmente o BC pode recomprar títulos indexados ao dólar para atenuar a flutuação das cotações no mercado.

Para o economista Fernando Honorato Barbosa, do BBV Banco, barrar o capital volátil é medida de país com conta externa equilibrada “Você pode, por exemplo, condicionar a alíquota do IOF ao prazo de permanência do dinheiro no país. Mas isso deve ser evitado, assim como qualquer medida que signifique o controle do câmbio.

Capital externo

Para o professor da Fundação Getúlio Vargas Paulo Nogueira Batista Júnior, a volta do capital externo é positiva e é natural que seja de curto prazo. Mas ele alerta: não se pode permitir a apreciação exagerada do real, que comprometeria o ajuste externo, afetando as exportações e a substituição de importações: “Se o Brasil cometer esse engano de novo vai ser espantoso. Um erro repetido tantas vezes nos últimos anos”.

Segundo Paulo Nogueira, a tentação de se deixar o real se valorizar é grande, pois os efeitos a curto prazo aparecem na aceleração da queda da inflação e na redução da dívida indexada ao dólar. Ele argumenta que há vários caminhos para frear a valorização do real:

“Um deles seria a compra de reservas. Uma solução que atacaria dois problemas, já que estamos com o nível de reservas muito baixo”. Outros caminhos seriam o alongamento dos prazos mínimos de captação, redução da oferta de títulos cambiais e dos juros a curto prazo:

“Mas o importante é o Banco Central, com as informações de que dispõe, ficar atento a esse movimento. Na equipe econômica, o atual fluxo de capitais é um assunto extremamente delicado. Por enquanto, a avaliação é que a entrada de capital de curto prazo é natural: toda vez que um país começa a recuperar a confiança, esse dinheiro é o primeiro a entrar. Por isso, dizem, não é bom sequer dar a entender que pode haver intervenção. Medidas como adoção de IOF, operação no mercado e redução da rolagem de títulos cambiais agora podem ser um tiro no pé, trazendo de volta os temores que levaram o dólar a quase R$ 4.

“Segundo um técnico da área econômica, esses recursos começaram a entrar no País há apenas um mês e o volume ainda é baixo. O impacto, diz ele, é grande porque o mercado de câmbio estava muito deprimido. O giro diário do mercado brasileiro, que já chegou a US$ 1,5 bilhão, andava por volta dos US$ 250 milhões.

Assim, qualquer operação de US$ 50 milhões num dia parece uma montanha de dinheiro.

O governo monitora atentamente a entrada de dinheiro. Mas o desafio não é restringir o capital de curto prazo, e sim fazer com que os recursos fiquem mais tempo. Até porque as previsões para entrada de investimentos diretos (o capital bom) são as piores possíveis.

O governo acha que o País está no caminho certo e, caso as reformas estruturais avancem no Congresso, a confiança no Brasil será definitivamente reconquistada. Além disse, esse técnico lembra que o fluxo de capital mudou. No ano passado, Turquia, Rússia e Ásia recebiam a maior parte dos investimentos. Hoje, renegociação de dívida, guerra e menor taxa de remuneração espantaram os investidores daqueles países. Restou a América Latina, e o Brasil tem o maior potencial de ganho: as ações brasileiras estão muito baratas e as taxas de juros ainda estão muito altas.