Definido o quadro sucessório, o Banco Central (BC) acredita que a turbulência no mercado financeiro será pelo menos parcialmente revertida. Essa expectativa está refletida nas novas projeções, divulgadas hoje (24), para as transações do Brasil com o resto do mundo este ano e em 2003. Mesmo com a retração no fluxo de recursos estrangeiros para o Brasil, o BC estima que o País conseguirá atrair US$ 16 bilhões em investimentos diretos, valor suficiente para financiar o déficit em conta corrente, que deve encerrarar 2002 em US$ 11 bilhões. Além disso, o câmbio deverá estar menos pressionado, permitindo que o BC reduza o volume de vendas de dólares para assegurar a liquidez do mercado.

Num ambiente de escassez de moeda estrangeira, a balança comercial, que é uma fonte importante para trazer dólares para o País, tem registrado resultados maiores do que o esperado. Isso acabou levando o governo a rever todas as suas projeções com relação ao desempenho das contas externas. Pela nova estimativa, volume de exportações irá superar as importações em US$ 11 bilhões este ano. No mês passado, o governo apostava que esse superávit seria de US$ 9 bilhões. Para o ano que vem, a expectativa é ainda melhor: um saldo comercial de US$ 15 bilhões  contra US$ 12 bilhões da projeção anterior.

Em razão dessa melhora no comércio internacional, o BC acredita que o déficit em conta corrente cairá de US$ 14 bilhões para US$ 11 bilhões este ano e manterá essa trajetória de queda ao longo de 2003, encerrando em US$ 8,9 bilhões. Assim como em 2002, o BC projeta ingresso de US$ 16 bilhões de investimentos estrangeiros diretos no ano que vem. Esse total cobrirá com folga de US$ 7,1 bilhões o déficit projetado para o período.

Isso deverá contribuir para melhorar a credibilidade do País e retomar o ingresso de outros capitais estrangeiros como financiamentos, empréstimos e aplicações em ações de empresas nacionais. Segundo o diretor de Política Econômica do BC, Ilan Goldfajn, a rolagem da dívida externa de grupos privados só deverá aumentar ao longo de 2003, ajudando a diminuir a pressão no mercado de câmbio.

Este ano, a taxa de rolagem desses compromissos que estão vencendo deve ficar em torno de 40%, o que é considerado muito baixo. Isso tem exigido uma atuação mais forte do BC nos últimos meses para suprir a carência de dólares. A expectativa, no entanto, é de que essa necessidade possa ser reduzida no último bimestre, quando o BC deverá reduzir pela metade o volume das intervenções diretas no mercado de câmbio realizadas este mês. Até hoje, a autoridade monetária gastou US$ 1,7 bilhão para suprir a falta de dólares.

O mesmo volume deverá ser gasto em novembro e dezembro. ?Mas isso não é um compromisso ou definição de estratégia. É apenas uma projeção?, ressaltou Goldfajn.

Outra fonte de pressão sobre a cotação do dólar que só deverá dar trégua ao governo no ano que vem são as remessas para o exterior por meio das contas de não-residentes, as chamadas CC5. Este mês, as saídas de recursos por essas contas já somam US$ 1,2 bilhão e deverão manter esse nível nos próximos dois meses, encerrando ano com uma saída líquida de US$ 8,3 bilhões. Para o ano que vem, entretanto, a expectativa é de que as remessas pela CC5 sejam reduzidas para US$ 3,6 bilhões.