Brasília – O excesso de chuvas no Centro-Oeste e a seca no Sul do País provocaram quebra na colheita de grãos deste ano, frustrando a expectativa do governo e de produtores de colher nova safra recorde. Segundo levantamento divulgado ontem pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), feito com 80% da área já colhida, a produção da safra 2003/04 deve ficar em 120 milhões de toneladas, abaixo das 123,1 milhões de toneladas do ano-agrícola anterior.

Em relação à última estimativa da Conab, de 130,8 milhões de toneladas, divulgada em fevereiro, haverá redução de 8,2%, com quebra de produção de 10,7 milhões de toneladas. O levantamento aponta que a maior perda ocorreu no Sul do País: 7,5 milhões de toneladas, sendo 5,5 milhões de toneladas de soja.

O Rio Grande do Sul, castigado pela maior seca dos últimos 13 anos, foi o estado mais prejudicado, com quebra de 4,1 milhões de toneladas de soja e 900 mil toneladas de milho. O extremo oeste de Santa Catarina, o sul do Mato Grosso do Sul e o noroeste do Paraná também foram duramente afetados pela seca. No Centro-Oeste, a quebra foi de 3,4 milhões de toneladas. Desse total, 2,1 milhões de toneladas de soja.

A menor produção de grãos na safra 2003/04, no entanto, não deverá reduzir a renda dos produtores, pelo menos no caso da soja, avaliou o presidente da Conab, Luís Carlos Guedes Pinto. “Os preços da soja já estavam bons e melhoraram ainda mais. A expectativa é de exportações no mesmo nível ou superiores às do ano passado por conta dos estoques de passagem. Com isso, a renda do produtor pode ser igual ou superior a de 2003”, afirmou. O estoque é estimado em 3,9 milhões de toneladas.

A Conab reduziu em 7,4 milhões de toneladas a estimativa de produção de soja, para 50,1 milhões de toneladas. Em relação ao ano anterior, quando foram colhidas 52 milhões de toneladas, a queda será de 3,6%.

O secretário de política agrícola do Ministério da Agricultura, Ivan Wedekin, minimizou o impacto da quebra da safra nos índices de inflação. “Um impacto inflacionário vai depender da evolução dos preços internacionais nas próximas semanas”, disse ele. Em duas semanas, o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) vai divulgar seu relatório de intenção de plantio de grãos na safra 2004/05 e deve indicar aumento da área plantada com soja, segundo Wedekin. “Esse aumento vai refletir nos preços. A tendência, como o mercado futuro indica, é de queda nos preços da soja.”

Apoio

De acordo com o secretário, o governo já estuda medidas de apoio aos agricultores prejudicados pela quebra de produção. A idéia é renegociar dívidas e liberar recursos para plantio da safra de inverno e, posteriormente, para a produção de verão. “As medidas serão tomadas caso a caso e não por meio de políticas gerais”, ressaltou.

O levantamento da Conab também apontou queda na produção de milho. Nas duas safras deste ano, a expectativa é de colheita de 42,6 milhões de toneladas, 10% abaixo da safra 2002/03, de 47,4 milhões de toneladas. Apesar da redução, não há previsão de desabastecimento, uma vez que o consumo esperado é de 39,9 milhões de toneladas e ainda há estoques de 3,9 milhões de toneladas.

No caso do feijão, a Conab estima que a primeira e segunda safras do grão serão de 1,2 milhão de toneladas e 1,1 milhão de toneladas, respectivamente. Ou seja, haverá reduções de 116 mil toneladas na primeira safra e de 222 mil toneladas na segunda sobre o levantamento de fevereiro. Para a terceira safra que começa a ser plantada em maio, há indícios de redução da área a ser plantada. No total, a Conab estima uma colheita de 3,2 milhões de toneladas do grão.

Otimismo

O levantamento trouxe, porém, duas boas notícias. A primeira é que a seca favoreceu a produção de arroz no Rio Grande do Sul, que terá safra recorde de 6,2 milhões de toneladas. Com isso, o País vai colher a maior safra de sua história: 12,8 milhões de toneladas de arroz, um aumento de 24,1% em relação a safra anterior. A segunda boa notícia é a produção expressiva de algodão, que deve somar 1,2 milhão de toneladas de pluma. Em relação ao ano anterior, quando foram colhidas 847,5 mil toneladas, o crescimento será de 46,3%.

Colheita do café no PR foi antecipada

A safra paranaense de café está estimada em 2,49 milhões de sacas de 60 kg, 27,7% a mais que a safra passada, quando foi colhido 1,95 milhão de sacas. Segundo a engenheira agrônoma Margorete Demarchi, do Departamento de Economia Rural da Secretaria da Agricultura, o aumento da produção se deve à recuperação dos cafezais, em função da bienalidade da cultura, isto é, safras alternadas com ano de alta produção, seguido por ano de baixa produção.

A última avaliação da safra aponta uma redução de 1,4% em relação à estimativa inicial de produção, que era de 2,52 milhões de sacas. “Essa redução se deve à estiagem ocorrida principalmente na região Noroeste e em parte da região Norte do Estado”, explicou Margorete. Em Maringá e Umuarama a estimativa de quebra chega a 13%, mas nas demais regiões produtoras a safra vem apresentando bom potencial de produção.

De acordo com a engenheira agrônoma, os prejuízos verificados nas lavouras cafeeiras vão desde queda de “chumbinho”, frutos de menor tamanho e peso, e diminuição da renda do café. A escassez de chuva verificada nos últimos três meses, além de prejudicar a safra e antecipar a colheita, deverá também comprometer a produção da próxima safra .

Cerca de 2% da área de 117.313 hectares já foi colhida. O restante das lavouras está em fase de frutificação (30%) e em maturação (70%).