Os cartões, sejam eles de crédito ou débito, são mais utilizados pelos brasileiros, nos dias de hoje, do que o cheque especial ou o dinheiro. Porém, o consumidor esquece que os juros dos cartões são maiores do que o do cheque (talvez o maior dos juros das operações bancárias, sendo que o rotativo do cartão cobra 238,3% ao ano, contra 161,3% da conta-corrente), sem falar que, mesmo que indiretamente, ele paga vários outros encargos que incidem no “dinheiro de plástico”. Um deles é o aluguel das máquinas pago pelos lojistas (que pode resultar em uma despesa de cerca de R$ 200 para o lojista, dependendo do número de máquinas que ele tiver) cujo valor, inevitavelmente, chega também no bolso do comprador. Sem falar na anuidade.

Porém, desde o dia 1.º de junho, pelo menos um desses encargos, que é o aluguel das máquinas pago pelo lojista, dá um alívio. Desde então acaba a exclusividade no uso das maquininhas instaladas no varejo pelas empresas credenciadas. Em outras palavras, o lojista pode utilizar somente uma máquina e não várias, como era antes, pois acaba a exclusividade de bandeiras (como Visa e Mastercard, por exemplo), ou entre credenciadoras (Cielo e Redecard, outro exemplo). Essa única máquina passa a aceitar todos os cartões de crédito e débito, diminuindo os custos para o comerciante.

Em média, um lojista gasta cerca de R$ 200 por mês com o aluguel de máquinas, já que o valor para cada uma varia entre R$ 30 e R$ 80. E como hoje o consumidor utiliza muito o cartão (seja de débito ou crédito), então não há alternativas para o comerciante: ou ele tinha esse gasto a mais, ou corria riscos com cheques que podem ser “voadores”, ou ainda, perdia vendas, pois muita gente nem anda mais com dinheiro “vivo” no bolso por causa de assaltos e do medo de saques em caixas eletrônicos.

Mas será que o consumidor terá algum benefício com essa mudança tecnológica? Para o vice-presidente da Associação Comercial do Paraná (ACP), Camilo Turmina, a mudança com certeza é benéfica para o comerciante, pois além da inovação tecnológica o lojista ganha espaço físico em seu estabelecimento. No entanto, ele acredita que essa diminuição de custo não chegará tão cedo no bolso do consumidor. “Não acredito que essa economia, que girará em torno de R$ 200 por mês para nós, traga tantos benefícios para o consumidor. Isso porque temos muitos outros custos dos cartões que são absurdos”, comentou.

Para os pequenos, a fase é de paciência para adaptação. O diretor comercial da Administradora de Cartões Senff, Welther Luiz Liconti, avalia que a mudança pode ser considera revolucionária, já que desde a década de 80 não ocorria algo significativo no setor. No entanto, ele diz que também trata-se de um desafio para os pequenos empresários do ramo. Mas ele vê boas perspectivas. “As pequenas empresas talvez acabem sendo os fiéis da balança com essa mudança. Ou seja, pode ser que nós façamos diferença na hora da escolha, já que agora uma máquina aceitará todas as bandeiras. E se no período de crise nossa empresa cresceu até 30%, então acredito que agora não vai ser diferente, basta continuarmos sendo criativos e continuar dando valor agregado aos clientes”, avaliou. Liconti acredita que esse período de adaptação e acomodação só terminará no ano que vem.

Economia será superior a 50%

A Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel-PR) estima que os gastos de um restaurante, por exemplo, podem diminuir em até menos da metade com as mudanças no setor de cartões de crédito. A Abrasel fez um cálculo: um comerciante poderá economizar cerca de R$ 2.640 por ano com o aluguel das máquinas.
Porém, o pleito maior do,s comerciantes é que haja uma redução de custos nas taxas de administração dos cartões. Assim, dizem eles, o valor de alguns produtos poderiam ser reduzidos para o consumidor. Os comerciantes querem que haja uma regulamentação do Banco Central em relação a essas taxas.

Para o vice-presidente da Associação Comercial do Paraná (ACP), Camilo Turmina, uma das taxas que mais incomoda é a de administração (o valor que o lojista paga para as empresas de cartão sobre as operações que faz em sua loja), que varia de 1,5% a 5%, conforme o tipo de comércio. “No meu tipo de comércio, que é uma joalheria, pago 5%. Porque fora do Brasil todos os tipos pagam de 1% a 1,5%? As empresas dizem que um dos motivos é a inadimplência, mas acho que isso não justifica valores de administração tão altos”, reclamou.

“O Banco Central interpreta e coloca as taxas como ele bem entende, com base no tipo de comércio. Não existe uma regulamentação. Mas eles não têm nada a ver com o meu faturamento”, reclamou. Para ele, as empresas de cartões poderiam cobrar por operação realizada, e não uma taxa fixa. “Tem comerciante que já está cogitando utilizar transferência bancária para receber o pagamento do produto ao invés de cartões”, comentou.

No mês de junho, o Banco Central informou que está trabalhando para reduzir o número de tarifas cobradas dos clientes pelos cartões de crédito. Com isso, o Banco Central pretende iniciar uma regulamentação no setor.

O tema é o número um em reclamações no Departamento de Proteção e Defesa do Consumidor, do Ministério da Justiça (77% do total). A Associação Brasileira das Empresas de Cartões e Serviços (Abecs) não atendeu a reportagem de O Estado, mas na imprensa em geral admitiu que haverá uma redução. (MA)

Movimentação do setor aumentou 21%

De acordo com a Associação Brasileira das Empresas de Cartões de Crédito e Serviços (Abecs), o Brasil encerrou o primeiro semestre deste ano com 597 milhões de cartões no mercado, incluindo os de crédito, débito e de redes de varejo (private label). Esse número representa 10% mais do que o registrado no mesmo período do ano passado.

Estes cartões movimentaram R$ 244 bilhões, um aumento de 21% em relação ao mesmo período de 2009. Os cartões de crédito são os mais usados, e movimentaram R$ 142 bilhões entre janeiro e junho deste ano.

A reportagem tentou entrevistar representante da Abecs durante duas semanas, mas ninguém deu retorno. Na imprensa, um dos representantes comentou no começo do mês que essa mudança seria “um marco divisório na indústria de cartões”. A mudança foi promovida pela Abecs, pelo BC e pelo Ministério da Justiça.
Em nota, a Abecs anunciou que o fato do lojista poder ter apenas uma máquina “implicará na simplificação para os estabelecimentos comerciais”. E para as empresas, segundo a Abecs, as mudanças “proporcionarão novas oportunidades de negócios, além de permitir a entrada de outros integrantes”. (MA)