A Copel fechou o ano de 2002 com um prejuízo líquido de R$ 320 milhões. O resultado, segundo a diretoria da empresa, “é pontual, refletindo os efeitos de causas excepcionais e fatores claramente identificáveis”.

Entre eles, são citados a variação cambial, que desvalorizou a moeda brasileira diante do dólar em 52% no ano; os contratos para compra de energia (principalmente os da UEG Araucária e da argentina Cien, ambos com cláusula “take or pay” use ou pague e com preços indexados ao dólar); a não autorização da Aneel para incorporação à tarifa da variação da chamada Parcela A (que engloba os custos não gerenciáveis); recálculos do MAE – Mercado Atacadista de Energia – que resultaram numa redução de R$ 57 milhões no saldo a receber por operações contabilizadas até dezembro de 2001 e a determinação da Aneel de incluir como Créditos de Liquidação Duvidosa as contas de luz de poderes públicos vencidas há mais de 180 dias, fato que provocou uma perda de R$ 72 milhões.

Meio bilhão

“Só os pagamentos feitos pela energia de Araucária e da Cien somaram meio bilhão de reais no ano passado, mas essa energia gerou uma receita insignificante à Companhia”, justificou o presidente da Copel, Paulo Pimentel. “Bastaria que esses dois contratos não existissem e a Copel teria encerrado o ano com lucro, mesmo com toda a desvalorização do real e os efeitos dos outros problemas.”

O presidente disse que esses números comprovam a percepção do governador Roberto Requião, que sempre combateu os contratos por serem contrários aos interesses da Copel e, ao dar posse à nova diretoria da empresa, determinou a imediata suspensão dos pagamentos. “Estamos negociando os contratos para restituir-lhes o equilíbrio econômico e financeiro”, informou Pimentel.

Receitas e despesas

O balanço anual da Copel revela que, operacionalmente, a empresa apurou um lucro de R$ 315,4 milhões ao final do exercício 2002. “Ou seja, a empresa em si é superavitária”, traduz o diretor de finanças e de relações com investidores, Ronald Ravedutti.

“Tivemos um crescimento de 2,8% no consumo de eletricidade, ainda bastante abaixo do patamar habitual de 5%, que antecedeu o episódio do racionamento”, destacou o diretor. “O consumo residencial praticamente não variou, mas registramos boa expansão entre as indústrias, com 4,1%, e no comércio, com 3,3%.”

Quanto às tarifas, a Aneel autorizou a Copel a reajustar seus preços no final de junho em 10,96%, variação que refletiu no caixa durante o segundo semestre do ano. A Agência, no entanto, não concedeu à Copel compensação por perdas financeiras decorrentes das variações de custos não gerenciáveis (a “Parcela A”), provocando no balanço um efeito líquido de R$ 205 milhões. “A empresa já tem um recurso administrativo tramitando na Aneel, reivindicando essa compensação e se for o caso vamos recorrer ao Judiciário em busca desse direito”, afirmou Ronald Ravedutti.

Variação cambial

As turbulências da economia internacional em 2002 e os movimentos especulatórios com o dólar durante o processo eleitoral fizeram com que a moeda brasileira chegasse em 31 de dezembro, valendo praticamente metade do que valia em 1o de janeiro.

Essa desvalorização atingiu a Copel em dois compartimentos: no seu endividamento em moeda estrangeira que é metade do seu endividamento total de R$ 2,2 bilhões e nos contratos de energia para revenda com preços referenciados ao dólar: no total, R$ 925 milhões (R$ 500 milhões da UEG Araucária mais Cien, e R$ 425 milhões de Itaipu).

Segundo o diretor de finanças, o endividamento da Copel pode ser considerado baixo em relação ao tamanho do seu patrimônio líquido, de R$ 4,7 bilhões. “Ainda assim, estamos estudando formas e mecanismos para reduzir nossa exposição às variações do câmbio”, informou o diretor.

Investimentos

A Copel consignou no seu balanço a realização de R$ 400 milhões em investimentos no ano que passou. Quase metade do total (R$ 190 milhões) foi destinado a obras de expansão, melhorias e manutenção do sistema de distribuição, que serve diretamente às mais de 3 milhões de ligações elétricas atendidas diretamente pela empresa. A segunda maior parcela (R$ 96 milhões) coube aos projetos, nos quais a Copel participa de maneira associada. A área de Transmissão (linhas e subestações de grande capacidade) recebeu investimentos de R$ 51 milhões, a de Geração, R$ 46 milhões e a de Telecomunicações, R$ 17 milhões.

Para o exercício de 2003, o Conselho de Administração da Copel aprovou um programa de investimentos de R$ 230 milhões, aproximadamente, atendendo às orientações do presidente Paulo Pimentel de que a Copel volte a privilegiar obras que digam respeito diretamente à sua atividade principal, que é a energia elétrica.

“A diretoria da empresa está analisando com cuidado todas as participações mantidas em outros empreendimentos”, observou Ronald Ravedutti. “Estamos dedicando uma atenção muito especial aos resultados proporcionados por essas parcerias, e iremos rever nossa posição em todas as que não apresentarem o retorno esperado”, finalizou.

Elétricas lideram a queda

A divulgação, ontem, dos resultados obtidos pela Copel no ano passado, foi um dos principais motivos para a queda de 2,95 pontos registrada na Bolsa de Valores de São Paulo. O comportamento interrompeu uma trajetória de alta que vinha se mostrando nos últimos cinco pregões. “Acho que é uma realização normal, o mercado teve vários dias de alta”, avaliou o diretor da corretora Ágora Senior Álvaro Bandeira. “Acho que não tem a ver nem com a conjuntura internacional de guerra, nem com a conjuntura interna.”

Assim como subiram com a maré, nesta terça-feira as ações de companhias do setor elétrico foram as que mais sofreram.

No período de ganhos, as ordinárias da Eletrobras chegaram a subir quase 12 por cento em uma única sessão. Neste pregão, eles recuaram 8,09 por cento, para 21,70 reais o lote de mil.

As ações da Copel lideraram o grupo, caindo 9,79 por cento, a 8,75 reais o lote de mil.