São Paulo

(das agências) – O Copom (Comitê de Política Monetária) do Banco Central decidiu na reunião que terminou ontem, manter a taxa de juros Selic em 21% ao ano e não adotou qualquer tipo de viés (instrumento que autoriza o presidente da autoridade monetária a elevar ou reduzir os juros a qualquer tempo antes das reunião ordinárias do Copom). Os juros já tinham sido elevados na semana passada, em uma reunião extraordinária do comitê, quando a taxa passou de 18% para 21% ao ano.

?O Copom decidiu, depois de avaliar o quadro econômico, manter a taxa Selic em 21% ao ano, fixada na reunião extraordinária do dia 14. A decisão foi por unanimidade??, informa o Copom em nota oficial.

Muitos analistas e economistas acreditavam na manutenção da taxa, porque o efeito da alta promovida na última semana ainda levará algum tempo para ser observado.

Alguns analistas acreditavam que o BC poderia adotar um viés de alta – instrumento que indica tendência de alta dos juros e permite ao presidente do BC alterar a taxa para cima sem necessidade de o Copom se reunir.

Essa expectativa baseava-se no fato de que, dessa forma, o BC poderia mexer no juro após o segundo turno das eleições, no caso de o mercado financeiro continuar turbulento.

As razões para a manutenção da taxa serão conhecidas na próxima quarta-feira, quando o BC divulgará a ata detalhando a reunião do Copom.

Sem surpresas

A manutenção da taxa básica de juros (Selic) em 21% não supreendeu o mercado. De acordo com nota divulgada pelo coordenador da Unidade de Política Econômica da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Flávio Castelo Branco, o aumento da taxa ainda não produziu o efeito esperado pelo Banco Central, que é a redução da pressão inflacionária provocada pela alta do câmbio.

“A provável reversão desta trajetória de alta e a estabilização da taxa em um patamar mais reduzido eliminará a fonte destas pressões nos preços. Com isso, abre-se espaço para a redução da taxa de juros em um momento próximo, condição para a retomada da atividade produtiva”, afirmou Castelo Branco na nota da CNI.

Dólar fecha estável, de novo

Após operar durante todo o dia em baixa e registrar alta por alguns momentos durante a tarde, o dólar acabou fechando ontem estável pelo segundo dia consecutivo, a R$ 3,91 para venda e R$ 3,90 para compra. O risco Brasil cai 3,37% para 1.863 pontos. Segundo operadores, a pressão durante a tarde ocorreu por parte de alguns bancos que compraram dólares para liquidar dívidas que vencem amanhã, e pode se estender ainda hoje.

Em contrapartida, alguns investidores estariam vendendo dólares para se precaver de uma esperada queda das cotações após o segundo turno da eleição presidencial, neste domingo, diante da crença de que o mercado já teria encontrado seu piso – ou no caso do dólar, seu teto.

Os vencimentos privados desta sexta-feira, ainda segundo os cálculos do mercado, somam US$ 500 milhões, sendo que três grandes bancos, dois estrangeiros e um brasileiro, respondem por 60% desse valor.

Além disso, um quarto banco de investimentos brasileiro que já havia comprado uma quantidade volumosa de dólares anteontem deu continuidade à operação nesta quarta-feira.

Bovespa

A Bolsa de Valores de São Paulo reagiu bem à manutenção da Selic em 21%. O pregão de ontem subiu 5,45%, com movimento financeiro de R$ 870 milhões. O Ibovespa passou para 9.840 pontos.

Mercado espera mudança de cenário

Olavo Pesch

O mercado financeiro considera muito difícil um novo aumento da taxa de juros nesse ano. Analistas trabalham com a possibilidade de queda da Selic em até dois pontos percentuais, porém só em dezembro. A expectativa do mercado é que até o final do ano o dólar recue para o patamar de R$ 3,70 a R$ 3,80, enquanto a Bolsa de Valores recupere parte das perdas, atingindo os 11 mil pontos.

“O mercado está conformado. Nesse ano, o dólar subiu 69% e a Bolsa caiu 31%, já embutindo o fato do Lula não ser preparado e de representar incerteza”, comenta o analista financeiro Marcelo Martenetz, da SM Consultoria Econômica. Nos últimos cinco dias, a Bolsa já subiu 17,56%. ” O que entusiasma mais o mercado é o programa de governo do Lula para a Bolsa de Valores. Ele pensa em incentivar o crescimento da Bolsa para resolver os prejuízos da previdência privada”, assinala.

Martenetz avalia que “a redução das incertezas sobre o próximo governo virá com o anúncio de ministros e cargos-chave antes de janeiro. Os juros só sobem se a equipe econômica for pouco preparada, mas o pessoal acredita que será gente de mercado”. O analista acredita que o dólar baixe em direção aos R$ 3,70 assim que passar o vencimento dos títulos cambiais. “O dólar só passa de R$ 4 caso a equipe econômica decepcione o mercado”. Para o economista Cid Cordeiro, do Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Sócio-Econômicos), a Selic depende de dois fatores para cair: recuo do câmbio e conseqüente redução da pressão do dólar sobre a inflação. “Não acredito que o governo fará isso a curto prazo. Em novembro, o Banco Central deve avaliar os impactos da alta da Selic na inflação e não mexer nos juros. Há possibilidade do corte acontecer em dezembro, porque o governo desejaria terminar o mandato com a taxa voltando ao patamar anterior”, aponta, lembrando que a vulnerabilidade do Brasil levou à prática de juros elevados, deixando a Selic bem distante dos 13% projetados pelo governo no início do ano.

O diretor da Spirit Corretora de Valores, Ricardo Moraes Filho, concorda que o mercado deve acalmar após as eleições. “Os juros tendem a cair em médio prazo, mas tudo vai depender da inflação. Em dezembro, os descontos nas vendas de Natal podem segurar a inflação”, opina. “Sempre existe uma inércia entre a ação de aumentar os juros e a desaceleração da inflação”, reforça, acrescentando que o impacto da elevação da Selic na semana passada será sentido ainda nos índices de inflação de novembro. Moraes trabalha com o dólar entre R$ 3,80 e R$ 4 no final do ano. De acordo com ele, o vencimento de títulos cambiais tende a pressionar a moeda.