O presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Luciano Coutinho, afirmou hoje que a crise financeira internacional está levando a economia global a um “momento quase crítico”. Ele mencionou que o sistema bancário europeu está parado e a liquidez está concentrada basicamente nos bancos centrais. Coutinho acrescentou que este fenômeno que torna a crise mais aguda está também contaminando o sistema interbancário dos Estados Unidos.

“Estamos à beira do duplo mergulho da economia mundial e da paralisia do crédito do sistema financeiro internacional”, comentou o presidente do BNDES, em palestra promovida em São Paulo pelo Instituto Brasileiro de Executivos de Finanças de São Paulo (Ibef-SP).

“O que discutimos é o grau de complicação da crise daqui para a frente”, disse. No entanto, Coutinho manifestou-se otimista de que as autoridades europeias estão tomando medidas que vão ser eficientes para atacar os principais problemas de crédito que envolvem tanto papéis soberanos quanto títulos privados.

Coutinho afirmou que o agravamento da crise, que está afetando a situação econômica de países europeus, também traz efeitos para a economia dos EUA, com perspectiva de retração da concessão de crédito naquele país. “O custo de capital nos EUA deve piorar”, previu. Segundo ele, em decorrência do agravamento da crise, a perspectiva é de um crescimento mais modesto da economia americana.

Coutinho destacou que a situação na Europa é muito grave, que inclusive uma “ruptura da economia da Itália seria algo muito drástico, impensável”. Ele ressaltou, no entanto, que o cenário de agravamento da crise europeia seria tão ruim que é mais razoável avaliar que as autoridades da zona do euro vão encontrar soluções para seus problemas no curto prazo.

Coutinho destacou que, em meio ao agravamento da crise, seria insensato economias em desenvolvimento pisarem no freio. Segundo ele, a economia global depende dos países em desenvolvimento mantendo suas trajetórias de crescimento em bons níveis, com destaque para Brasil, China, Índia e outros países da Ásia. “Do contrário, o mundo entraria em ‘double dip’ de verdade”, afirmou.

O presidente do BNDES destacou que embora a economia brasileira tenha boa perspectiva de crescimento, apesar da crise internacional, há desafios para a continuidade da expansão do País no longo prazo. Um deles é o avanço da competitividade da indústria, que sofre acirrada concorrência internacional. Segundo ele, há sinais de que várias cadeias produtivas estão sendo ameaçadas por competidores estrangeiros. Contudo, ele destacou que tais desafios podem ser superados.

Além do mercado doméstico forte, Coutinho ressaltou que os bancos nacionais são maduros, assim como o Banco Central. “Ninguém vai fazer bobagem. Não haverá bolha de crédito”, destacou, afirmando que é salutar moderar a expansão da concessão de financiamento da economia, como já está sendo feito pelo governo.

Coutinho lembrou que a perspectiva de investimentos no Brasil é positiva para os próximos anos, com várias oportunidades em diversos setores, alguns deles até normalmente invisíveis à sociedade. “Se uma crise de crédito ocorrer, saberemos como atacá-la. E a banca privada tomará atitude diferente da adotada em 2008”, comentou. Coutinho manifestou-se confiante de que o setor financeiro privado não iria novamente congelar o fluxo de empréstimos para empresas e famílias caso a crise se agrave, pois há uma compreensão muito grande dos bancos de que a economia brasileira tem um setor privado sólido, com ótimas perspectivas de faturamento e vendas em todos os segmentos.