Em 1994, o Brasil sofreu uma grande transformação na economia. O êxito no combate ao fantasma da inflação e a criação do Real pelo então ministro da Fazenda, Fernando Henrique Cardoso (no governo Itamar Franco) foi o primeiro passo para que a população perdesse o medo de investir e começasse a consumir cada vez mais. Nos últimos dois anos, com o crescimento da classe C (aqueles que possuem renda entre R$ 1.144 e R$ 2.860) o consumo deu uma guinada maior ainda. As classes D (que ganham entre R$ 571 e R$ 1.143) e E (renda até R$ 571) têm grande parcela de contribuição nesse consumismo, de acordo com os especialistas.

A Pesquisa Nacional por Amostra em Domicílios (Pnad), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), traz algumas informações que apontam este aumento no consumo. Em 2003, por exemplo, 2,9 milhões paranaenses afirmavam possuir um fogão em casa. Em 2006, este número saltou para 3,1 milhões. O mesmo ocorreu com as televisões. Enquanto em 2003 2.7 milhões de paranaenses tinham o aparelho, em 2006, 2,9 milhões deles afirmaram a mesma coisa. Quando o assunto é computador e celular, então, os números crescem mais ainda. Em 2003, 534 mil paranaenses pesquisados declararam possuir computador em casa, três anos depois já eram 880 mil. Com relação ao celular, o número saltou de 256 mil para 876 mil. Somado a isso, verifica-se um incremento mensal nas compras do comércio: o volume de vendas aumentou 10% em janeiro deste ano, em comparação a janeiro de 2007. Veículos, imóveis, alimentos, enfim, praticamente todas estas áreas verificaram aumento no consumo nos últimos anos.

Muitas dessas compras são efetuadas a prazo. Mas não foi só o medo da inflação que fez com que os brasileiros começassem a comprar. O aumento nos salários, a queda na inflação, os juros mais baixos do que em anos anteriores, a facilidade de crédito, a recuperação do emprego e a disseminação de programas sociais, como o Bolsa Família, são os principais fatores apontados pelos especialistas como explicação para esta mudança de comportamento.

O professor e coordenador do curso de Ciências Econômicas da UniFae, Gilmar Lourenço, disse que o fato de a classe C ter aumentado entre 2005 e 2007 foi decisivo para o crescimento no consumo. Em 2005, a classe C aumentou de 34% da população, para 46%, em 2007. Já as classes D e E caíram de 46% para 39%. As classes A e B se mantiveram estáveis, com 15% da fatia. ?Essa mobilidade social foi determinante?, afirmou o professor. Hoje são 86 milhões de brasileiros que pertencem à classe C. ?Sem falar que nos últimos dois anos além do aumento dos reajustes reais do salário mínimo tivemos a ampliação do crédito e a dilatação dos prazos de pagamento. E as pessoas não olham os juros, olham a prestação que cabe no bolso?, explicou.

O membro do Conselho Consultivo do Instituto Brasileiro de Executivos de Finanças (Ibef), Luiz Afonso Cerqueira, tem a mesma opinião de Lourenço. Segundo ele, desde a estabilidade da moeda (na década de 90, com o plano Real), as pessoas começaram a ter confiança para guardar dinheiro e comprar à vista, ou até mesmo financiar. ?Elas saíram do básico e foram para os eletrodomésticos. E em seguida para os carros e imóveis. Na medida em que você não tem inflação oscilando, crédito interessante tanto para o banco como para o consumidor e a expansão do crédito, cria-se um círculo virtuoso, ou seja, as pessoas podem até colocar crédito em cima de crédito?, diz ele.