Rio (AG) – A inadimplência bateu recordes nos últimos meses e, de olho nos R$ 41,4 bilhões que serão pagos em correção do FGTS e na renda extra que muitos trabalhadores têm em serviços temporários na Copa do Mundo e nas eleições, bancos e financeiras já começam a lançar planos para renegociação de dívidas. A Losango, por exemplo, vai oferecer a partir de junho descontos de 100% sobre os encargos da dívida (juros, multas e taxas de administração) para os clientes com atraso entre seis e dez meses. O banco HSBC quer conquistar novos correntistas concedendo abatimento de 10% na dívida do cartão de crédito para quem migrar para um cartão do banco.

O consultor Nelson Campos, coordenador do CredShop, “site” especializado em intermediar a renegociação de dívidas entre credores e clientes inadimplentes, afirma que mesmo as empresas e instituições que não têm programas específicos estão dispostas – e muito – a dar descontos. Em alguns casos, o desconto pode chegar a 40% para quem pagar à vista o total devido.

A vantagem para os credores pode ser entendida pelos números da inadimplência. Segundo pesquisa mensal do Banco Central (BC), o atraso superior a 15 dias nos empréstimos a pessoas físicas atingiu 15,1% em abril, o nível mais alto desde junho de 2000, quando BC começou a fazer o levantamento. Dados da Centralização dos Serviços Bancários (Serasa) mostram que, nos quatro primeiros meses do ano, a média mensal de cheques devolvidos foi de 14,7 em cada mil compensados, no pior quadrimestre desde 1991, quando a instituição começou sua pesquisa.

Campos explica que, com a explosão da inadimplência e o aumento do desemprego, os credores preferem dar descontos e reaver o valor devido a ter que buscar novos clientes. E isso vale não só para bancos e financeiras como também para colégios, concessionárias de serviços públicos (empresas de telefonia e energia elétrica) e construtoras que financiam imóveis.

– Se a dívida estiver muito atrasada, com 800 dias (mais de dois anos), por exemplo, o desconto chega a 80% do valor total. Isso porque os juros altos fazem a dívida explodir – explica Nelson Campos.

Para se ter uma idéia, a taxa média de juros nos empréstimos a pessoas físicas é de 7,9% ao mês, o que equivale a quase 150% ao ano, segundo dados da Anefac, associação que reúne os executivos de finanças do país. Além disso, muitas instituições aplicam juros sobre juros.

Como os ganhos dos brasileiros só fazem encolher – no primeiro trimestre deste ano, a renda média do trabalhador caiu 5,7% – e o desemprego cresceu para 7,6% em abril, a opção para os credores é negociar. A Fininvest, por exemplo, não tem no momento nenhum plano específico para renegociação de dívidas. Mas garante que está sempre aberta a facilitar para os clientes a quitação dos débitos.

No caso das empresas de cartão de crédito, porém, os consumidores se queixam de dificuldades na negociação. Segundo eles, as empresas só aceitam conversar após três meses de inadimplência.

O administrador de empresas Manoel de Castro Sampaio Neto procurou uma saída criativa para quitar sua dívida com cartões de crédito, em cerca de R$ 12 mil no total, e ainda trocar seu carro antigo por um modelo zero quilômetro. A taxa de juros paga por ele às administradoras dos cartões era em média de 12% ao mês. Neto procurou um banco e consegui um financiamento para a compra do carro novo, pagando juros de 1,98% ao mês. Vendeu o carro antigo e usou parte do dinheiro do empréstimo para pagar sua dívida no cartão. Com o restante, deu entrada no carro novo:

– A dívida aumentou por conta dos gastos com o carro novo, mas os juros hoje são muito menores e as parcelas a serem pagas são fixas. A dívida no cartão crescia descontroladamente – conta.

O diretor da Losango conta que, normalmente, a empresa lançava programas para renegociação a partir de setembro, para facilitar compras de Natal. Este ano, a temporada de renegociação começa este mês. O plano de renegociação oferecerá, a partir de junho, desconto de 100% sobre os encargos (juros e taxas, que às vezes chegam a superar o valor principal da dívida) para quem pagar à vista débitos com atraso de seis a dez meses. A dívida também pode ser parcelada em até sete vezes. Em julho, será a vez dos clientes com atraso de dez a 30 meses. Eles terão desconto de 10% a 20% sobre o principal da dívida no pagamento à vista.

Já o banco HSBC, além de oferecer desconto de 10% (até o limite de R$ 200) para dívidas no cartão de crédito de quem migrar para um cartão HSBC, reduziu pela metade os juros cobrados no seu produto.

– Nosso objetivo é captar novos clientes – diz o gerente de cartões de crédito do HSBC, Celso Roitman.