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Procurar trabalho continuará
para milhares de trabalhadores.

 Rio (AE) – A criação de 10 milhões de empregos em quatro anos foi apenas promessa de campanha, apesar de sempre negada pelo presidente Lula. Pelo menos nas seis regiões metropolitanas pesquisadas pelo IBGE (São Paulo, Rio, Belo Horizonte, Salvador, Recife e Porto Alegre), o total de vagas foi de 2,464 milhões. São as áreas de maior potencial empregador, com quase 30% da população do País.

A taxa média de desemprego caiu, como atesta levantamento feito pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), vinculado ao Ministério do Planejamento. Ficará em torno de 10% e deve continuar caindo em 2007, mas ainda em ritmo lento, à espera do aquecimento da economia.

O retrato do mercado de trabalho no primeiro mandato de Lula exibe um trabalhador com pior remuneração, mas mais formalizado. Mostra que o desemprego atinge com mais intensidade a população mais jovem, apesar do Programa Nacional de Estímulo ao Primeiro Emprego, que não decolou. E aponta agora para o início da recuperação do poder de compra do trabalhador.

?É necessário um aumento real de 2,1% para recuperar perdas e igualar o valor médio ao de 2002. Isso vai ser muito facilmente alcançado no ano que vem e, aí sim, vai haver progresso de fato?, afirma o pesquisador do Ipea, Marcelo de Ávila.

Em 2002, o rendimento médio real do trabalhador, que já vinha em queda, era de R$ 1.078,92, em valor de novembro de 2006, mês que teve o maior valor médio real do primeiro mandato de Lula: R$ 1.056,60, pelos dados da Pesquisa Mensal de Emprego do IBGE.

Os resultados de dezembro e a média fechada do ano serão divulgados no mês que vem.

Informalidade continuará sendo base do crescimento

Rio (AE) – A taxa de desemprego continuará caindo, mas lentamente, no ritmo da economia ?que cresce pouco, mas cresce?. Essa é a avaliação do economista José Márcio Camargo, da consultoria Tendências. Porém, segundo ele, apesar do forte ritmo de crescimento do emprego formal, a informalidade continuará sendo a base do mercado, com mais da metade da força ocupada. ?É razoável pensar que o mercado formal encontrará um ponto de equilíbrio em torno de 45%.?

Camargo atribui o fenômeno à alta cunha fiscal, que onera em demasia o custo das empresas e faz boa parte dos trabalhadores optar pela informalidade, em busca de rendimentos maiores, sem o desconto da carga tributária. O crescimento recente das vagas formais, acredita, deve-se ao avanço do setor exportador, obrigatoriamente formal, e a mudanças na legislação, como o banco de horas, que diminuíram um pouco o custo da formalização.

Já o pesquisador do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), Marcelo de Ávila, pondera que um exercício de simulação que iguale todas as regiões do País ao mesmo perfil metropolitano dos seis maiores centros urbanos – o que considera irreal e estatisticamente incorreto – revelaria, aproximadamente, a criação de 8 milhões de empregos. ?Não são os 10 milhões prometidos, mas é um número bastante forte.?

Das quase 2,5 milhões de vagas criadas de 2003 a 2006, nas regiões pesquisadas pelo IBGE, quase metade (1,3 milhão) ficou concentrada na faixa de trabalhadores entre 24 e 48 anos, segundo mostra a compilação feita pelo Ipea. A decomposição dos dados expõe a boa notícia do fraco crescimento do trabalho infantil: só 13 mil empregos foram dirigidos a crianças e adolescentes entre 10 e 14 anos que, pelos critérios estatísticos, pertencem à camada da chamada ?população em idade ativa?. Entre os com idade entre 15 e 17 anos, foram 12 mil. Mas também o jovem trabalhador, entre 18 e 24 anos, teve pouco espaço: 172 mil novas vagas.

?A competitividade do mercado de trabalho beneficia as empresas e pune o trabalhador que busca ingressar no mercado. Pessoas um pouco mais velhas, com alguma experiência e qualificação têm a preferência pela vaga?, diz Ávila, referindo-se à relação entre a oferta e a procura no mercado.

Essa corrente é considerada natural e positiva pelo economista André Urani, do Instituto de Estudos do Trabalho e Sociedade (Iets), para quem o programa do governo para estimular o aumento de vagas para os jovens é equivocado. ?O Primeiro Emprego é um erro, subsidia a troca de um pai de família por um jovem no mercado de trabalho. Por sorte, foi feito de maneira errada e não deu certo.?

Urani argumenta que, no mundo inteiro, a prioridade de acesso ao trabalho não recai sobre o jovem. A demora no acesso ao mercado, acompanhada de maior permanência na escola, é positiva para elevar a qualificação e a competitividade dos trabalhadores. ?Eles terão mais condições de entrar no mercado pela porta da frente e não pela dos fundos.?

O que vem massacrando o ingresso ao primeiro emprego, diz ele, é a migração industrial, que retira capacidade de oferta dos grandes centros, que não encontram outra vocação de mercado. Este cenário se verifica principalmente em São Paulo, que vem perdendo o perfil industrial sem substituí-lo por um quadro de serviços à altura de absorver a força de trabalho. Também ocorre nos subúrbios do Rio. ?As regiões metropolitanas estão tendo muita dificuldade de se reinventar.?

Desempregados não acreditam nas promessas

São Paulo (AE) – Viagens de fim de semana, TV a cabo e internet são itens que não fazem mais parte do cotidiano da família da pedagoga Maria Aparecida S. Ghiringhelli, moradora na zona sul da capital paulista. Ela ficou desempregada este mês, depois de vencidos dois contratos em que prestava serviços dando aula para adultos em uma empresa.

Casada, com um filho de sete anos, Maria Aparecida, de 38 anos, ainda teve de administrar o desemprego de sete meses de seu marido, que está agora em uma nova empresa, mas com salário muito mais baixo que o anterior. ?Até telefone fixo tivemos de cortar; estou apenas usando celular atualmente?, conta.

Para tentar uma colocação, Maria Aparecida prestou concurso para o Estado e o Sesi. Passou em ambos, mas não foi chamada ainda e não tem certeza de que sua colocação permitirá a inclusão em um dos dois locais. ?Estou passando um Natal de muita ansiedade, porque não sei se no ano que vem poderemos, por exemplo, pagar a escola do nosso filho.?

O menino estuda numa instituição particular e seus pais conseguiram um desconto razoável, por conta de uma bolsa. Mas, mesmo com o desconto, a mãe não tem certeza de que poderá cobrir o gasto. Se não conseguir, o filho irá para a escola pública. ?Tínhamos uma vida de classe média confortável, que incluía idas freqüentes ao teatro, ao cinema e viagens ao litoral em alguns fins de semana. Agora cortamos tudo.?

A situação da família de fato mudou bastante. No emprego anterior, o marido tinha bom salário e comissões – ele é vendedor de equipamentos importados – e Maria Aparecida cuidava apenas da casa. ?Agora, estou atrás de qualquer ocupação, seja na minha área ou não.?

Ela não está entre os eleitores do presidente Lula, em nenhuma das duas eleições. ?Não acredito nele, nunca acreditei. Não acho que ele tenha capacidade.?

Baixos salários

O ourives Adriano Borba, de 30 anos, morador da cidade de Congonhas, em Minas Gerais, no momento tenta sobreviver trabalhando em casa, com algumas ferramentas que adquiriu. Mas o que quer mesmo é voltar a ser empregado, trabalhando, pelo menos como ajudante, embora tenha feito o curso de cinco meses pelo Senai, em 1997.

Em sua busca, por empresas de Belo Horizonte, ele até conseguiu achar algumas poucas vagas, ?mas eram salários em torno de R$ 500,00. Sou casado, tenho um filho de 13 anos e não poderia jamais sustentar minha família com essa renda?. Borba diz que precisaria ter pelo menos um ganho de R$ 1.500,00, pois teria de morar em Belo Horizonte, cidade de custo mais alto que a sua, e ainda mandar dinheiro para a família. ?Estou visitando as empresas da capital e mandando currículos pela internet. E só assim acho que vou conseguir algo. Não acredito em promessas de que haverá milhões de novos empregos?, diz.

Iniciativas do governo, aliás, também não estão resolvendo o problema do estudante Eric Neves, de 17 anos, que procura trabalho desde janeiro, apesar de todos os anúncios sobre a criação de vagas para primeiro emprego. Ele está prestes a completar o ensino médio e tem experiência em vendas.

?Há pouco tempo mandei e-mail com currículo para 17 empresas que estavam oferecendo vagas de primeiro emprego. Só uma respondeu, mas o horário coincidia com o do colégio.? Ele diz que está dando prioridade ao estudo e não poderia aceitar.