A disputa entre floriculturas e hipermercados pela venda de flores – movimento que cresce na época de Finados – pode parar no Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica). As floriculturas alegam que os supermercados vendem flores com preços abaixo do custo (dumping) ou com margem de lucro pequena, entre R$ 0,01 e R$ 0,20. O Sindicato Patronal do Comércio Varejista de Flores e Plantas de Curitiba e Região Metropolitana solicitou uma reunião com o Sindicato Patronal dos Supermercados e Hipermercados de Curitiba, Região Metropolitana e Litoral (Sindimercado) para discutir o assunto.

“Estamos sendo prejudicados por concorrência desleal”, sustenta o presidente do Sindicato do Comércio de Flores, Francisco Macedo Machado. “O vaso que custa R$ 2,50, eles vendem por R$ 2,50 a R$ 2,70. Com mão-de-obra, embalagem e perdas, vendemos por R$ 5”, exemplifica. Segundo ele, a violeta que custa de R$ 0,80 a R$ 1 nas floriculturas pode ser encontrada por R$ 0,70 nas grandes redes de varejo. “Não somos contra a venda de flores em supermercados, mas queremos que eles tenham preço razoável”, argumenta. “Os supermercados usam a flor como chamariz para mais 50 mil itens, enquanto nós só trabalhamos com flores”, compara Machado.

A briga com os supermercados se acirrou nos últimos cinco anos. “Há oito anos, as floriculturas dobravam as vendas em Finados e contratavam mais gente para ajudar”, relata Delili da Silva Tibes, coordenador do Sindicato das Floriculturas. “Hoje em dia, a compra de flores é quase a mesma de uma semana normal. Floriculturas mais distantes dos cemitérios nem abrem no Dia de Finados porque não compensa pagar hora extra com pouco volume de vendas”.

Na Grande Curitiba, há cerca de 700 floriculturas, que geram quase 5 mil empregos diretos. “Tem muita floricultura fechando as portas porque não consegue à essa concorrência desleal”, aponta Tibes. “Eu mesmo fechei duas lojas, no Capão Raso e no Portão, que estavam próximas de supermercados”, relata Machado, proprietário da Flora Tassy Ltda.

Uma das soluções encontradas pelas floriculturas para enfrentar os preços mais baixos nos supermercados é agregar valor aos produtos, oferecendo cursos de arranjos florais em parcerias com o Senac e a Emater, e acessórios, como bombons, ursinhos de pelúcia e bebidas.

Margens

O presidente do Sindimercado, Flávio Oscar Câmara, informou que a reunião será marcada nos próximos dias. Caso as partes não cheguem a um acordo sobre a política de preços, os representantes das floriculturas estudam outras medidas, entre elas o ingresso de ação no Cade.

“Nós não temos como interferir na política de comercialização dos supermercados”, rebate Câmara. “Se todos os supermercados vendem mais barato, as floriculturas é que estão com margens altas, já que os fornecedores são os mesmos”, raciocina. “Os supermercados trabalham com a margem necessária para a média de 2 a 2,5% de lucro líquido. Se as floriculturas precisam de uma margem de 10 a 20%, talvez esteja aí a diferença e eles precisem negociar com a fonte de abastecimento”, considera. Câmara explica que não há restrição legal para os supermercados venderem flores, desde que tenham uma seção específica para as plantas. Ele discorda que as flores sejam usadas como chamariz de vendas. “O pessoal anuncia arroz e feijão, que atrai cliente, e não crisântemos”, cita. O presidente do Sindimercado diz que a tendência do mercado são grandes lojas, como ampla gama de atividades e serviços ao consumidor, e lojas especializadas de conveniências. “As floriculturas têm que ser melhores que as dos supermercados, com preço, serviço, qualidade e comodidade. A maioria não tem estacionamento”, alfineta.

Beneficiado é o consumidor

Olavo Pesch

Apesar da chiadeira das floriculturas, o coordenador do Procon/PR (Coordenadoria de Proteção e Defesa do Consumidor), Naim Akel Filho, entende que há mercado para ambos os revendedores. “Não há nenhum prejuízo nessa ampliação do mercado de venda de flores. Para o consumidor, é uma vantagem, pois quanto mais popularizado o comércio, aumenta a competição e os preços tendem a diminuir”, considera. “Somos testemunhas de que, no passado, havia abusos enormes por parte das floriculturas, mas hoje o mercado é mais aberto. Quando quero um produto ou embalagem diferenciada, vou na floricultura”, observa Akel.

Na próxima semana, o Procon/PR divulgará uma pesquisa de preços de flores para Finados. “O objetivo é balizar o consumidor para saber o que é caro e o que é barato, estimulando a concorrência entre os fornecedores”, explica Akel. O Sindicato do Comércio de Flores também divulgou uma lista de preços médios de produtos para Finados, com variação de R$ 2 (maço de cedro) a R$ 15 (dúzia de palma longa).