São Paulo

(AG) – Os mercados financeiros tiveram ontem mais uma jornada de terror, um pouco embalada pelo escândalo na empresa americana WorldCom, um pouco influenciada por mais uma nova onda de desconfiança e especulação. O dólar comercial fechou em alta de 2,02%, a R$ 2,88. É a maior cotação da moeda desde o início do Plano Real, em 1994. A moeda chegou a registrar a máxima de R$ 2,888.

Os especialistas financeiros acreditam que a situação chegou a um ponto que é impossível prever se a taxa atingirá os R$ 3,00 ou voltará para um patamar de R$ 2,70, considerado o ideal neste momento pelo mercado. Nem mesmo a atuação do Banco Central, com leilão de linhas externas, troca de papel de longo para curto prazo, venda de dólares e aumento de compulsório, tem ajudado, segundo os economistas. Para eles, o mercado se descontrolou e já não olha mais para os fundamentos da economia brasileira.

A Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa), que começou o pregão um pouco mais tarde por causa do jogo do Brasil contra a Turquia, fechou em queda de 0,14%. O Ibovespa registrou 10.690 pontos e volume financeiro de R$ 455 milhões. A bolsa chegou a cair 2,30% no início da tarde, atingindo 10.430 pontos, mas se recuperou nas últimas horas de negociação.

Enquanto isso, o risco-país chegou ontem à tarde a 1.724 pontos-base, alta de 7,4% em relação ao fechamento de terça-feira. Segundo o economista-chefe do banco SulAmérica Luiz Carlos Costa, a aversão ao risco é o fator que afeta em cheio os mercados emergentes, dos quais o Brasil é um gigante. De fato, o Brasil vem apenas atrás da Argentina em relaçao à pior taxa de risco do mundo. Embora o índice reflita apenas a variação de interesses exigidos pelo mercado, é considerado um indicador da percepção do risco com o qual os investidores vêem o país, traduzindo-se, além disso, num encarecimento do crédito e na dificuldade de renegociar dívidas privadas e públicas. Essa aversão ao risco é grave para o Brasil, porque significa que leva tempo para se restabelecer”, afirmou Luiz Carlos Costa.

A descoberta de erro de US$ 3,8 bilhões no balanço financeiro da WorldCom, controladora da Embratel (ver matéria na página 22), foi o fato do dia na bolsa. A empresa demitiu o seu executivo-chefe financeiro após descobrir fraudes nos balanços de 2001 e primeiro trimestre de 2002. “A notícia veio como uma bomba logo no início da manhã, mas acabou perdendo impacto no final do pregão. Os preços estavam exagerados e o mercado de renda variável acabou se recuperando um pouco. As ações de empresas exportadoras, como Petrobras, Embraer e Vale do Rio Doce, melhoraram”, afirmou Luiz Roberto Monteiro, analista da corretora Souza Barros.

A Bovespa começou o dia já em queda de 0,27%, com 19,676 pontos. Dez minutos depois, a queda chegava a quase 1%. Na mínima do dia, a Bovespa registrou queda de 2,30%, com 10.430 pontos. Segundo um operador, a atuação do Banco Central, com leilão de linhas externas, troca de papel de longo para curto prazo, venda de dólares e aumento de compulsório, não tem surtido efeito neste momento de pessimismo. As expectativas não são muito boas para os próximos dias. Monteiro disse que ainda pesa forte a preocupação com a alta do risco-país e o futuro do Brasil, principalmente com os rumores de que Anthony Garotinho (PSB) estaria abrindo mão de sua candidatura para apoiar Luiz Inácio Lula da Silva, candidato do PT.

Fernando Leite, da Corretora Quality, disse que o risco-país afasta os investidores e que a falta de dólar à vista pressiona muito a moeda. Para ele, os fundamentos da economia estão sólidos e não há motivo para tanta preocupação. Em Calgary, no Canadá, o presidente da Espanha e da presidência rotativa da União Européia, José Maria Aznar, pediu ontem aos líderes do G8 (países mais ricos do mundo e Rússia) para que expressem confiança na política econômica do Brasil.