Foto: Ciciro Back/O Estado

Calçado brasileiro: tem qualidade e competitividade, mas sente a crise.

A baixa cotação do dólar ameaça tirar o sapato brasileiro de preço elevado das vitrines sofisticadas de cidades como Nova York, Paris e Madri. Para fugir da perda de margem e dos altos custos de fabricação, o exportador nacional de calçados de grife, feitos à mão, começa a refazer estratégias de venda. Da mesma maneira que os maiores fabricantes do País, eles começam a ter dificuldades no exterior por causa do dólar.

A maior dor-de-cabeça desses empresários não é nem a China, que vende sapatos para o mundo todo a preços imbatíveis. Os produtos brasileiros sofisticados concorrem com os sapatos italianos e espanhóis, referência global de qualidade quando se fala em exportação. E é nessa disputa que os brasileiros de grife temem perder espaço, principalmente para o carimbo Made in Italy.

A grife Constança Basto, por exemplo, com uma loja em Nova York há três anos, examina a possibilidade de começar a fabricar seus sapatos na terra do concorrente. ?Já reduzi margens e aumentei um pouco o preço. Se subir mais um degrau em sofisticação, vou ter de elevar o preço e vou perder mercado para os italianos?, diz o diretor-executivo da Constança Basto, Marcos Lima. Para sofisticar mais, explica, teria de importar um couro acabado na Itália, o que deixaria o sapato com um custo em torno de US$ 160. ?Se eu produzir este mesmo sapato lá, o custo cai para algo em torno de US$ 145?, compara. ?Não vou ficar à mercê do dólar.?

Em um ano e meio, Lima diz que perdeu 30% nas vendas para os Estados Unidos, Ásia e Oriente Médio. Além da marca Constança Basto, com sapatos que custam de US$ 275 a US$ 565 no exterior, a empresa tem uma segunda grife, Peach, também exportada, com produtos um pouco mais baratos, com preço médio de US$ 185. Sua intenção é também passar a fabricar esta marca na China, para baratear custos. ?Independentemente do dólar, no Brasil os custos mais elevados da alfândega, do frete e dos tributos deixam os calçados menos competitivos lá fora.?

A Scala, no mercado internacional com a marca Morenatom e que esteve há duas semanas em feiras americanas, uma em Las Vegas e em outra em Nova York , dirigida a estilistas, também revê estratégias. ?Com o dólar tão desvalorizado frente ao real, não tenho saída; reduzo margem ou vou produzir o meu calçado em outro país, provavelmente na China?, diz o diretor da empresa, Nelson Germann. Ele vende a marca Morenatom na faixa de US$ 110 a US$ 150. Já a Morenatom Coture, coleção inverno, tem preços que vão de US$ 350 a US$ 700. Para se diferenciar dos concorrentes, ele explora o conceito de brasilidade em sapatos coloridos feitos exclusivamente para exportação.

?Nossa carteira de clientes são butiques de roupas e lojas de sapatos sofisticadas. Para continuar vendendo para eles vou reduzir pela metade minha margem na coleção que vou entregar em junho, mas depois não dá mais?, diz Germann. A saída pode ser a China. ?Se o dólar continuar despencando, como tudo indica, talvez produza outra marca lá.?

Ele passou vinte anos produzindo e vendendo calçados para importadores com marcas dos clientes. Agora seu projeto é lançar grifes para o mercado internacional. ?Investi US$ 2 milhões nos últimos três anos para entrar no exterior e não quero desistir?, diz. Os chineses, observa, já fazem sapatos de qualidade boa de até US$ 100.

A marca Luiza Barcelos, produzida em Minas, ganhou um filhote em setembro, por causa do câmbio. ?Lançamos a linha Prime Label com sapatos em torno de US$ 300, o dobro da linha normal?, diz a diretora-comercial da empresa, Rosa Barcelos. Ela explica que o calçado, vendido em butiques e em volumes pequenos, concorre com o italiano, e que só é possível brigar com a concorrência no exterior se o produto for muito sofisticado. ?Com o dólar em queda, perdemos 30% do volume de vendas antes de criarmos a nova linha, porque o preço não estava mais competitivo?, diz. A marca Luiza Barcelos é exportada há sete anos para o Japão, Israel, Grécia, Itália, Inglaterra, Alemanha, Estados Unidos e para países da Ásia e África.

A Pollignano Al?Mare, que marca presença na butique de luxo Daslu, com sapatos artesanais que custam de R$ 300 a mais de R$ 1 mil, conseguiu no ano passado desembarcar na refinada Bergdorf Goodman, na Quinta Avenida, em Nova York. Na semana retrasada, Juliana Piva de Albuquerque Lewkowicz, designer da marca, estava na Coterie, uma feira de moda nos Estados Unidos para novamente negociar com compradores. Mas ficou em dúvida se vai conseguir vender mil pares para o mercado externo como na coleção anterior, de verão. ?Com os preços que entramos nos Estados Unidos, competimos com os italianos.?

Em julho do ano passado, a Bottero, que exporta para 45 países, lançou a marca Madeira Brasil para vender sapatos produzidos com matéria-prima mais elaborada, de custo elevado, para compensar a baixa cotação da moeda americana. ?O problema é que o dólar vem se desvalorizando cada vez mais e os pedidos estão caindo porque os concorrentes têm preços competitivos. Nos próximos meses, se conseguirmos vender o equivalente à produção do ano passado, já é para comemorar.?