O dólar teve ontem a sexta alta consecutiva e atingiu o maior valor em três meses. A cotação subiu 1,17% e fechou a R$ 2,752. Após nove meses de baixa, a moeda norte-americana mudou de tendência e já acumula ganho de 6,29% em março. Fatores internos e externos explicam essa mudança de rumo. O Ibovespa (53 ações mais negociadas) fechou o dia de negócios, ontem, na marca dos 28.098 pontos (alta de 0,09%) depois de fortes oscilações. O giro somou apenas R$ 1,467 bilhão, bem abaixo da média diária do mês passado (R$ 2 bilhões) e o menor desde 9 de fevereiro (R$ 1,371 bilhão).

A alta do dólar coincidiu com o primeiro dia de vigência das novas regras do mercado de câmbio, que facilitam as remessas de recursos para o exterior. Lá fora, o dólar também se recuperou em relação a moedas fortes, como o euro, a libra esterlina e o iene. O Brasil acompanhou essa tendência internacional da moeda americana.

?O novo patamar do dólar é um valor acima de R$ 2,70?, disse o analista da corretora Vision, Mauro Araújo.

A proximidade do vencimento de uma dívida cambial também favoreceu a alta do dólar, pois os bancos querem lucrar mais com o resgate dos títulos pelo Banco Central. Hoje, a média oficial do dólar (Ptax) será usada como referência para a liqüidação de uma dívida de US$ 1,255 bilhão que vence amanhã.

Arsenal do BC surte efeito

Neste mês, os bancos deixaram de apostar na queda do dólar e estão desmontando as chamadas ?posições vendidas? no mercado futuro. Ou seja, eles estão ajustando os valores dos contratos negociados diariamente na BM&F (Bolsa de Mercadorias & Futuros) e que tentam adivinhar o preço da moeda em um determinado período.

Antes, as instituições financeiras projetavam valores cada vez mais baixos para o dólar diante do excesso de divisas no mercado. Tanto que, em fevereiro, houve consultoria apostando em dólar a R$ 2,40 no curto prazo. Agora, os bancos estão mais conservadores em suas previsões. Acham que pode ?faltar? dólar em seu caixa.

O excesso de dólares foi enxugado pelo arsenal de medidas adotadas pelo Banco Central, que passou a comprar lotes maiores de divisas para reforçar as reservas internacionais do País – dinheiro que serve para pagar dívidas e fica guardado para proteger o real no caso de uma crise externa. Ontem, o BC voltou a adquirir moeda em leilão.

Juros no Brasil e nos EUA

As especulações sobre o futuro dos juros no Brasil e nos EUA ajudam a explicar essa mudança de percepção dos bancos sobre o patamar da moeda norte-americana. Antes, eles achavam que os juros elevados do Brasil (em alta desde setembro) atrairiam cada vez mais os dólares dos investidores estrangeiros.

Mas, no final do mês passado, o BC sinalizou que deve parar de subir os juros em breve. Para economia real, isso é uma boa notícia, pois o aperto monetário encarece o crédito, desestimula o consumo e prejudica a criação de empregos. Para os bancos e fundos de investimento, parar de subir os juros e depois começar a cortá-los significa que os títulos públicos que compõem seu patrimônio vão render menos.

Por outro lado, os bancos passaram a vislumbrar que os EUA vão começar a aumentar seus juros com mais intensidade, no ritmo de 0,50 ponto percentual, e não no costumeiro 0,25 ponto. Ou seja, os títulos americanos vão ficar mais atraentes.

Risco dos emergentes

O resultado dessa equação (juros com tendência de baixa no Brasil e de alta nos EUA) é negativo para o fluxo de capital que inundou os mercados emergentes nos últimos meses, pois os grandes bancos do mundo estão cada vez mais ?tentados? a retirar recursos desses países e comprar ativos cotados em dólar.

A seqüência de alta do dólar nos últimos dias reflete o jogo de especulações que toma conta das tesourarias bancárias em momentos cruciais. Hoje haverá um pronunciamento do presidente do Fed (Federal Reserve, o BC americano), Alan Greenspan, no Senado. A fala de Greenspan pode reforçar ou não a percepção de que os juros americanos tendem a subir com mais força. Também hoje começa a reunião de dois dias do Copom (Comitê de Política Monetária) sobre os juros no Brasil.

Os bancos são unânimes em apostar em nova alta da taxa (a sétima, se confirmada), mas estão divididos se o aumento será de 0,50 ou 0,25 ponto percentual. Mais do que essa decisão, eles querem saber as justificativas usadas pelo BC na ata da reunião que só será divulgada na quinta-feira da próxima semana. No mês passado, esse documento citou que o atual ciclo de aperto monetário estava perto do fim.