Brasília

  – O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central se prepara para tomar esta semana a decisão que promete ser a mais polêmica até agora no governo Luiz Inácio Lula da Silva. Na próxima quarta-feira, caberá ao Copom mostrar quem ganhou o acalorado debate que vem dividindo o mercado financeiro, economistas e o próprio governo. O BC terá que optar por agradar à parcela de analistas que defende a manutenção dos juros em 26,5% ou àquela, que conta com o apoio de parte expressiva do governo, que acha que chegou a hora de começar a reduzir as taxas em cerca de 0,5 ponto percentual.

O BC estará espremido entre ser acusado de impor um sacrifício desnecessário à economia se mantiver os juros altos ou de se deixar levar pelo entusiasmo de uma melhora que ainda não se consolidou. A decisão vai depender basicamente se os diretores do BC vão olhar para o passado ou para o futuro dos índices de inflação.

“Os argumentos técnicos para baixar os juros já existem, o que não se via em fevereiro ou março. Para que a decisão não seja uma aposta, o Copom pode esperar mais um mês. Os diretores do BC até deram declarações recentes para frear a expectativa de queda imediata”, afirmou o economista-chefe do Credit Lyonnais no Brasil, Dalton Gardimam, que espera a manutenção dos juros.

“Não me surpreenderia se os juros caíssem 0,5 ponto percentual nesta reunião”, disse o economista-chefe do Unibanco Asset Management (UAM), Alexandre Mathias.

Gardimam esteve reunido na semana passada com integrantes do governo e percebeu um otimismo grande nas avaliações sobre a melhora dos indicadores econômicos internos. Para ele, porém, a equipe econômica tem visto com cautela a melhoria geral no mercado internacional de títulos nos últimos 45 dias. O economista do Credit Lyonnais lembrou que já se fala numa reavaliação.

“O mundo está muito favorável desde fins de março, e os países emergentes estão extremamente otimistas com isso. Mas o deslumbramento pode gerar frustração”, alertou Gardimam, que projeta uma inflação para o IPCA de 13,1% este ano e taxa de juros de 22,5% em dezembro.

Já para o economista-chefe do UAM, as projeções para o IPCA em 12 meses, que estavam em 13,2% em dezembro, em situação de descontrole, agora caíram para 9%. Ele crê que o BC não deverá cumprir a meta de inflação este ano, mas o índice deve ficar próximo à meta em 2004.

O economista Gustavo Loyola, da Tendências Consultoria e ex-presidente do BC, também está entre os cautelosos. Segundo ele, a queda dos juros será a primeira medida para o BC desmontar a série de medidas de política monetária usadas nos últimos 18 meses para conter a instabilidade no mercado. Foram retirados de circulação R$ 60 bilhões com os depósitos compulsórios, encolhendo a oferta de crédito. Ainda houve dois aumentos nas exigências de capital mínimo dos bancos para aplicar recursos em câmbio.

Loyola acredita que ainda é cedo para mexer nos juros e o BC deveria esperar mais um mês. Segundo ele, a queda dos preços só ocorreu no atacado e os índices ao consumidor ainda não sentiram os efeitos da recente queda no câmbio. O economista desqualificou a tese de que os juros devam cair para evitar uma valorização excessiva do real. Para ele, os juros no mercado futuro já estão abaixo dos 26,5% ao ano da Selic e desestimulam a captação de recursos no exterior para aplicar no mercado brasileiro. “Não há margem para ganhos com a entrada de capitais de curto prazo”, disse.