O anúncio da chegada de uma indústria europeia de embalagens, feito na última semana, é uma das provas de que o Brasil está na mira dos investidores internacionais, e que o Paraná tem muito a ganhar com isso também. A chegada da multinacional a Campo Largo, que deve atrair cerca de 90 milhões de euros ao Estado em investimentos, até 2016, é apenas uma entre várias instalações, que podem ser encontradas em diversas áreas, como o comércio e os serviços, e em diferentes tipos, como investimentos diretos, parcerias ou franquias.

A injeção de dinheiro europeu, norte-americano e de outros países no Brasil não acontece por acaso. Não é só o País, mas também outros mercados emergentes, que estão atraindo o capital. Como a economia nos países mais desenvolvidos ainda patina a atual crise na Europa é mostra disso , mas ainda existe muito dinheiro nos cofres, o movimento é visto por especialistas até como natural.

A instalação da SIG Combibloc, que é de origem suíça mas pertence a um grupo neozelandês, está entre os investimentos mais importantes, e ajuda a confirmar o fenômeno. A empresa, que é uma das principais fabricantes de embalagens cartonadas para armazenamento de leite e sucos, por exemplo, não esconde que está colocando em prática uma estratégia de internacionalização e crescimento em mercados emergentes.

A planta, que ocupará uma área total de 130 mil metros quadrados e empregará 225 pessoas, será a primeira do grupo na América Latina e já começou a ser construída, no mês passado. A ideia é começar a produzir, a partir do segundo semestre do ano que vem, um bilhão de embalagens por ano, durante a primeira fase de operação, e dobrar a produção até 2016. Tudo para abocanhar uma fatia de um mercado que precisa de cerca de 10 bilhões de embalagens ao ano.

De acordo com o presidente da companhia, Rolf Stangl, o Brasil atualmente é visto como uma das melhores oportunidades de investimento. A empresa estima que a demanda por alimentos lácteos em embalagens longa vida deva aumentar em 1,5 bilhão de litros, até 2012. O avanço equivale a cerca de 30% do crescimento mundial no segmento. Entre os sucos, néctares e bebidas a base de soja, a estimativa é de crescimento de 500 milhões de litros, 40% da previsão mundial total.

Os investimentos internacionais não ficam restritos à indústria. De olho no crescimento do mercado de imóveis, investidores portugueses estão trazendo, ao Paraná, a rede de franquias imobiliárias norte-americana Re/Max, tida como líder do segmento em transações. A rede já está em 13 estados brasileiros e pretende conquistar a liderança de franquias no setor, no País.

Dois dos sócios das operações da rede na Região Sul, os empresários portugueses Paulo Carmona e José Victorino, admitem que a situação é favorável para investir no Brasil, e que a procura dos europeus pelos estados do Sul é, de certa forma, natural. A taxa para abrir uma franquia da empresa é de R$ 25 mil e o investimento inicial, de R$ 85 mil, aproximadamente.

Atração

Com o Brasil atraindo investimentos, cada município, estado ou região joga com suas armas. Na região Sul, nem só a localização e as maiores facilidades para a logística vêm sendo atrativos. A qualificação da população, maior que a média do País, também vem sendo determinante em alguns casos.

Segundo o diretor da empresa SIG Combibloc para a América do Sul, Ricardo Rodriguez, a localização da fábrica, em Campo Largo, trouxe vantagens, como maior facilidade no transporte rodoviário, marítimo e aéreo. Mas a disponibilidade de mão-de-obra qualificada também a,judou na escolha.

O secretário da Indústria, Comércio e Assuntos do Mercosul, Virgilio Moreira Filho, lembrou na última semana que o interesse da Sig Combibloc em ter uma fábrica no Paraná era antigo, mas foi adiado pela crise internacional. A empresa, segundo ele, também recebeu benefícios fiscais previstos em lei, como dilação no prazo de recolhimento do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) e inclusão no programa Bom Emprego.

A qualificação também foi um atrativo importante para investidores portugueses, que trouxeram para a região Sul a rede de franquia imobiliária norte-americana Re/Max. Para José Victorino, um dos sócios, o nível de instrução no Paraná e na Região Sul, é, em geral, maior que no restante do País, o que facilita na hora de contratar.

Motivação é a vitalidade da economia

São dois os movimentos de empresas estrangeiras buscando investimentos no Brasil, segundo o advogado tributarista Gilson Faust, da Pactum Consultoria Empresarial: um é de empresas que já estavam instaladas no País, mas de forma mais acanhada, e estão agora aumentando suas atividades. Outro, de companhias que nunca atuaram por aqui e começaram, há alguns meses, a estudar operações no Brasil.

“O que as motiva é a vitalidade da economia brasileira, com a tendência de crescimento de 6% a 7% ao ano”, analisa, lembrando que Estados Unidos e países europeus não estão em condições de atingir tais taxas. Mudanças nas classes de consumo também são outro atrativo, assim como eventos como a Copa de 2014 e as Olimpíadas de 2016, que podem injetar até US$ 50 bilhões na economia nacional.

Faust ainda lembra que as empresas que estão investindo no País têm, ao mesmo tempo, capital acumulado, que não querem deixar parado, e necessidade de crescer. São principalmente indústrias, mas há também companhias nas áreas de prestação de serviços e comércio. Para vir, ele conta que muitas delas buscam conquistar o mercado local se aliando a empresas daqui. A associação também tem outros motivos práticos: “Muitas não entendem muito bem o sistema tributário brasileiro”, diz.

O complexo modelo de cobrança de tributos, no Brasil, é um dos pontos que assusta as empresas, segundo Faust. Ele diz que o sistema exige estudos aprofundados, que nem sempre são entendidos com facilidade pelas empresas. Além disso, o advogado lembra que qualquer erro de interpretação
pode inviabilizar o negócio. Por esse motivo que ele diz que não é pequeno o número de empresas estrangeiras que vêm buscando consultoria na área.

Faust conta que um de seus clientes teve tanta dificuldade para entender o sistema tributário, que foi necessária a ajuda de um diretor de origem brasileira da empresa, que trabalhava em uma área que não tinha relação alguma com o assunto. “Mas nada disso tem sido obstáculo para os investimentos”, comenta.

Um dos sócios das operações da Re/Max na Região Sul, o português José Victorino, também diz que se assustou com certos aspectos burocráticos na hora de se instalarem no País. E a confusão não é exclusiva de órgãos públicos: ele reclama que, na operadora de telefonia celular que contratou, tem que lidar com três gerentes diferentes, um para cada Estado, e as condições dos planos contratados também acabam mudando em cada local.

Brasileiras também se internacionalizam

O interesse em investir no Brasil não foi restrito às multinacionais estrangeiras,no ano passado. Um estudo feito pela Fundação Dom Cabral e divulgado na última semana mostrou que as 23 maiores empresas brasileiras que atuam também no exterior reduziram em 12,4% seus ativos em outros países no ano passado, enquanto, por outro lado, os aumentaram, em 7,1%, no País. A crise, que reduziu as receitas tanto internas como externas no período, foi apontada como um dos motivos do fenômeno. A redução nos ativos se deu, segundo a Fundação, através de vendas, diminuição nas participações, ou fechamento de subsidi&aa,cute;rias.

A empresa com o maior índice de internacionalização apontada pela pesquisa foi a JBS-Friboi, que possui 83,6% de suas vendas e 64,0% de seus funcionários no exterior, atua em sete países e cinco continentes. Ainda assim, a companhia tem apenas 37,3% de seus ativos fora do Brasil, já que teve grande crescimento também no mercado doméstico, onde aumentou em 143% seus ativos. A aquisição da concorrente nacional Bertin foi a principal responsável pelo aumento.