Foto: Rodrigo Leal/Appa

Terminal portuário da Ponta do Félix, em Antonina: prejuízos incalculáveis com suspensão dos embarques para a Rússia.

O terminal portuário Ponta do Félix, em Antonina, está com as operações praticamente paralisadas. Desde a semana passada, o terminal – especializado na exportação de congelados – está proibido de embarcar para a Rússia, país que responde por mais de 90% da carne escoada pelo terminal paranaense. Segundo o diretor-presidente do Ponta do Félix, José Augusto Desordi da Costa, os prejuízos são incalculáveis.

?A preocupação é grande não só no terminal, mas na cidade toda?, afirmou. O terminal emprega cerca de mil pessoas, direta e indiretamente. Segundo o diretor-presidente, o Ponta do Félix deixou de exportar para a Rússia no último dia 9. ?Toda quarta-feira, um médico russo ia de Itajaí (SC) para Antonina colher algumas amostras, ver o aspecto dos produtos e liberava a carga para o embarque. Na quarta da semana passada, ele perguntou se estávamos estocando produtos no Paraná. Respondemos que sim, ele ligou para a Rússia e a resposta foi que não poderíamos?, contou.

Costa afirmou que não sabe ao certo o motivo da restrição. ?Dizem que é por conta dos focos de aftosa; outros falam que há suspeita de que haveria cargas de estados embargados ou ainda falsificação de certificados de sanidade animal. Não passaram um documento oficial?, explicou. Segundo ele, toda carga exportada para a Rússia tem certificado sanitário assinado por um médico veterinário brasileiro e um russo. ?Se o médico russo não assina, essa carga não pode ser desembarcada lá porque está sem liberação.?

Na última terça-feira, uma missão russa que está no Brasil passou pelo terminal de Antonina. ?Achei que iriam tirar a restrição, mas pelo contrário: proibiram também que o Porto de Itajaí (SC) exportasse congelados?, afirmou. O terminal de Antonina recebe congelados de várias indústrias como a Sadia, Perdigão, Minerva, Friboi e Independência.

Prejuízos

Os prejuízos ainda não foram calculados, mas são grandes, uma vez que o terminal Ponta do Félix concentra 60% das atividades em congelados – os outros 40% incluem produtos siderúrgicos, florestais, bobinas de papel. ?Só em congelados, faturamos no mês passado R$ 3 milhões. Para um porto do porte do de Antonina, é um valor alto?, comentou. Em abril, contou, o terminal movimentou 33 mil toneladas de congelados – mais de 90% seguiu para a Rússia; para este mês, a previsão era de 30 mil toneladas – a quantidade movimentada até agora, porém, é de apenas 4 mil toneladas. Além disso, dos 10 navios russos que atracariam no terminal de Antonina este mês, somente um conseguiu carregar. ?Todos os outros foram cancelados?, informou. Segundo Costa, o Ministério da Agricultura já está tomando as devidas medidas para derrubar a restrição.

Frigoríficos

A Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne (Abiec) confirmou ontem a suspensão da compra de carne bovina de 11 frigoríficos brasileiros pela Rússia. Segundo o Ministério da Agricultura, ainda não há comunicação oficial do governo daquele país. A Rússia é o principal importador de carne bovina do Brasil.

A Rússia já mantinha embargo para quatro frigoríficos de aves e um bovino. Com a decisão de ontem, o número de plantas proibidas de exportar para a Rússia sobe para 15.

Preocupação também em Paranaguá

No Terminal de Contêineres de Paranaguá (TCP), a restrição imposta pela Rússia causou indignação. ?Essa medida não tem critério algum. Esses produtos têm certificação do Ministério da Agricultura, têm certificação internacional, são produtos impecáveis. Além disso, boa parte já vem estufada (envazada) na origem, não tem qualquer contato com o entreposto?, afirmou o superintendente do TCP, Juarez Moraes e Silva.

Em Paranaguá, a quantidade de congelados para a Rússia é pequena. ?Movimentamos cerca de 200 contêineres por mês para a Rússia, ou seja, cerca de 5 mil toneladas. O grande prejuízo é mesmo para Antonina?, reconheceu. Em abril, o TCP movimentou 43 mil contêineres, 27% deles de congelados – a maior parte seguiu para o Oriente Médio, Europa, Estados Unidos, África. A carga para a Rússia, contou Silva, representa 2% dos congelados exportados pelo Porto de Paranaguá. O carro-chefe é o frango, seguido por suínos e bovinos em todos os tipos de corte.

Para as indústrias, a medida pode elevar os custos. ?Para as empresas é terrível porque não há opções de logística para escoar este tipo de produto. Quem pode escoar, mas com extrema dificuldade, seria o Porto de Santos ou do Rio Grande (RS)?, observou. A Sadia estaria retirando produtos congelados de Antonina para escoar pelo Porto de Itajaí (SC), quando este ainda estava liberado para exportar para a Rússia, mas a assessoria de imprensa da empresa não confirmou.

 De acordo com Silva, autoridades russas alegam que o Paraná e Santa Catarina ainda estariam sob regime de suspensão por conta da febre aftosa. ?É uma alegação frágil, que não se sustenta tecnicamente?, observou. Ele acredita que a medida possa ser uma ?retaliação? com outros interesses.