Rio (AG) – A inadimplência, que em maio atingiu 15,2% dos R$ 76,5 bilhões em cheques emitidos, alimenta uma indústria que vive de proteger o varejo, os bancos e até as prestadoras de serviço público do calote. Empresários do setor estimam que essa indústria movimente, por ano, em torno de R$ 2 bilhões. Somente as quatro maiores empresas de informação, verificação e garantia de cheque, juntamente com a maior firma do setor de cobrança, faturaram aproximadamente R$ 600 milhões no ano passado. Um bom negócio que teve seu boom de crescimento a partir do Plano Real, com o aumento do crédito ao consumidor:

– Das 120 empresas que atualmente operam com cheques, cerca de cem nasceram depois do Real. A expansão do crédito levou ao aumento da inadimplência e à demanda por esse tipo de serviço – explicou Carlos Pastor, presidente da Associação Brasileira das Empresas de Informação, Verificação e Garantia de Cheques (Abracheque).

Na área de cobrança, são cerca de 700, estima Rogério Bonfiglioli, presidente da Associação das Empresas de Recuperação de Crédito:

– Mas esse número pode ser bem maior. Muitos escritórios de advocacia atuam nessa área – afirma Bonfiglioli, que não tem os números do faturamento do setor. – O mercado é muito pulverizado, a associação está tentando há quatro anos chegar a esses números.

Segundo Sérgio Zacchi, vice-presidente da Telecheque, empresa que faturou em 2001 R$ 38,5 milhões e estima para este ano ganhar R$ 42 milhões com o mercado do cheque, o auge do crescimento do setor aconteceu antes -entre 93 e 95 – com a popularização do cheque pré-datado:

– Nos últimos quatro anos, o crescimento ficou entre 4% a 5% ao ano – disse Zacchi.

lJulio Shinohara, diretor de Marketing e Negócios do Grupo Unidos, a maior empresa de cobrança do país e da América Latina, contesta a teoria de que a inadimplência é boa para o setor – somente em 2001, a empresa recuperou R$ 1,8 bilhão para seus cerca de cem clientes. Segundo ele, as empresas ganham em cima dos créditos que conseguem recuperar, num percentual que varia entre 5% e 35%:

– Quando a inadimplência sobe, fica mais difícil essa recuperação.

Mas o consumidor pode sofrer com essa prevenção vendida para o varejo. O recepcionista Fernando Bittencourt está sem crédito há mais de um ano, desde que usaram seus documentos para abrir uma conta bancária. Entrou na Justiça contra a Telecheque, por não ter sido avisado da inclusão na lista de restrição cadastral. Ganhou em primeira instância o direito a receber uma indenização de R$ 10 mil. Segundo Zacchi, da Telecheque, a empresa já recorreu e somente vai falar sobre o caso quando o processo estiver encerrado.