SÃO PAULO (Reuters) – Como um soco certeiro em uma luta de vários rounds, a Embratel foi duramente atingida com a divulgação de um escândalo de 3,8 bilhões de dólares na contabilidade da norte-americana WorldCom, que controla a principal operadora brasileira de telefonia de longa distância.

As ações da empresa abriram em baixa superior a 20 por cento no início dos negócios na Bovespa, após o meio-dia desta quarta-feira. E o lote de mil ações preferenciais da Embratel encerrou o dia em queda de 25,52 por cento e de ordinárias em baixa de 16,67 por cento, enquanto a Bovespa caiu apenas 0,14 por cento.

O vice-presidente de Econômico-Financeiro da Embratel, José Maria Zubiría, procurou desvincular a empresa brasileira das acusações que pairam sobre a WorldCom.

Já os analistas não conseguem fazer essa separação e acreditam que a Embratel deve sofrer contágio da imagem negativa da sua controladora. Isso pode pesar na rolagem da dívida e captação de recursos, além de enfraquecer um ativo que está à venda.

“A Embratel é autônoma e independente da WorldCom. Nossos credores têm ficado confortáveis com o relacionamento que têm com a Embratel, o que diferencia o risco´´, afirmou Zubiría em entrevista por telefone à Reuters.

Ele acha pouco provável que a Comissão de Valores Mobiliários (CVM), que fiscaliza o mercado de ações, faça uma investigação nos balanços da Embratel. A CVM informou que ainda analisa o caso.

“Acho que não há essa possibilidade. Sempre fomos uma empresa com comunicação forte com os organismos reguladores´´, comentou Zubiría.

Como exemplo de que a Embratel “contabiliza as coisas como são´´, o executivo citou a conta de provisão para devedores duvidosos, que foi de 174 milhões de reais no primeiro trimestre, 15 milhões de reais acima da expectativa dos analistas.

Os números da Embratel são auditados agora pela Deloitte, que assumiu a Andersen no Brasil. “Com a Deloitte ficamos confortáveis. É uma empresa séria, com boa reputação´´, afirmou Zubiría.

Nos Estados Unidos, a WorldCom era auditada pela Andersen, que esteve também envolvida na falência da empresa de energia Enron.

O analista Ricardo Ventrilho, da Itaú Corretora, não descartou erros nos balanços divulgados pela Embratel, embora não haja indícios. “É óbvio que a possibilidade (de fraude contábil) sempre existe, mas a probabilidade é pequena´´, disse.

Ele esclareceu que a denúncia de que a WorldCom contabilizou 3,8 bilhões dólares em gastos como investimentos vai levar a uma revisão dos balanços da empresa, o que diminui a confiança nos gestores do grupo. O diretor financeiro da WorldCom, Scott Sullivan, foi demitido na terça-feira junto com o anúncio do rombo.

“A confiabilidade e a credibilidade do ´manegement´ foram bastante afetadas, o que acaba respingando aqui´´, disse. “Hoje a WorldCom teria que tomar empréstimo a um custo maior´´. A avaliação dos gestores é um dos critérios subjetivos para a concessão de crédito, segundo Ventrilho.

O analista recomenda a venda das ações da Embratel desde abril, após a divulgação do prejuízo de 36,4 milhões de reais no primeiro trimestre. Ele não vê dificuldades imediatas para a Embratel, já que a empresa se capitalizou no início do ano.

A dificuldade maior será em 2003. Zubiría afirmou que a estratégia para o próximo ano será fortalecer os resultados operacionais de forma que gerem caixa suficiente para gerenciar a dívida.

Ao final do primeiro trimestre, a dívida líquida (menos caixa) da Embratel era de 3,1 bilhões de reais, quase 100 por cento dela em moeda estrangeira. A proteção cambial está acima de 40 por cento desse montante, segundo Zubiría.

ATIVO X VENDA

“A Embratel apresentou, de um ano para cá, problemas financeiros e começou a perder receita com a implantação da concorrência´´, afirmou o analista João Bustamante, da IDC. ´´Agora fica mais forte ainda a possibilidade de venda´´, acrescentou.

A WorldCom reafirmou nesta quarta-feira que tem a intenção de vender ativos na América Latina, o que inclui a Embratel e a mexicana Avantel.

O controle da Embratel pode ser vendido a partir de julho de 2003, mas limitações regulatórias impedem que as empresas que mais se beneficiariam do negócio possam comprá-la. Seriam a Telefônica, Telemar e Brasil Telecom, operadoras locais que ganhariam uma forte atuação corporativa e na longa distância.

“A solução neste momento é uma parceria, que daria uma força financeira´´, afirmou Bustamante, defendendo a venda de parte minoritária da Embratel. “A união de forças é um fator positivo´´, disse. (As informações são da Agência Reuters)