Foto: Hedeson A. Silva
Em greve há cinco dias, operadores,
agenciadores marítimos e funcionários
do porto promovem manifestação.

O governador Roberto Requião disse ontem que a atual administração do Porto de Paranaguá está com um caixa positivo de R$ 160 milhões. Com esse dinheiro, informou, o governo do Estado terá condições de pagar à vista as obras de execução do cais oeste, que vinham dependendo de recursos do governo federal. “O governo do Estado vai bancar a obra e depois vai cobrar da União”, afirmou.

Requião anunciou que o edital de licitação para ampliação do cais em 820 metros vai ser publicado hoje (23). Com o convênio firmado entre o governo do Estado e o Ministério dos Transportes, a obra será realizada com um custo 40% menor daquele projetado pelo governo anterior, de R$ 250 milhões.

Quando pronta, acrescentou o governador, a ampliação do cais deverá proporcionar uma melhoria de 60% na qualidade logística do porto, aumentando as exportações de grãos em até 25%. O Porto de Paranaguá já é atualmente o maior exportador de grãos da América Latina.

O cais terá três berços para atracação e o aporte logístico será complementado com a ampliação do acesso para caminhões. Na última sexta-feira (19) foram abertos os envelopes para a escolha das empreiteiras que serão contratadas para fazer a pavimentação em concreto dos 25 quilômetros de pista na entrada do porto. O resultado da licitação será anunciado ainda nesta semana.

Filas

O governador defendeu ontem, durante reunião com seu secretariado, as medidas administrativas propostas pela direção do Porto de Paranaguá para reduzir a fila de caminhões ao longo da BR-277. De acordo com a Appa, os caminhões só devem seguir até o porto quando a carga já estiver vendida e o navio em vias de atracação. “Com isso, o caminhão chega ao porto e já descarrega”, explicou Requião.

“Ocorre que essa medida contraria os interesses dos operadores e grandes exportadores acostumados a ganhar dinheiro com a especulação da mercadoria no mercado de compras à vista”, disse o governador. Ainda segundo o governador, o porto tem equipamentos e capacidade para embarcar 1.500 toneladas de mercadorias por hora. Mas os operadores reduziram os embarques para 100 toneladas por hora. “Ao mesmo tempo, deram ordem no interior para que centenas de caminhões viessem carregados para o porto, criando o impasse.”

Segundo Requião, o prejuízo causado pela paralisação do Porto de Paranaguá não é do governo e sim dos operadores portuários, “que podem morrer pela ingestão do próprio veneno”. Ele lembrou que os operadores portuários terão que indenizar os 6 mil caminhoneiros que estão parados na BR-277. Os caminhoneiros pedem o pagamento de R$ 0,40 por tonelada/hora.

O governador garantiu ontem que seu irmão Eduardo permanecerá como superintendente do Porto de Paranaguá, não cedendo às pressões de operadores que pedem sua saída. “O Eduardo é meu preposto, tirá-lo de lá é tirar o governador”, afirmou.

Mudanças

As mudanças administrativas e institucionais implantadas pelo Porto de Paranaguá visam dar maior segurança na movimentação de cargas. A intenção é fazer com que as operações sejam mais transparentes.

Para o cadastramento do operador portuário, a superintendência exige que as empresas tenham credibilidade e lastro financeiro. Além disso, restringe mudanças na seqüência de atracação de navios, aumenta a exigência de volume das operações de embarque de mercadorias e dá preferências para navios com maior volume disponível para carregamento.

Oposição, na Assembléia, quer demissão

A bancada da oposição na Assembléia Legislativa cobrou ontem (22) a demissão do superintendente do Porto de Paranaguá, Eduardo Requião, para resolver o impasse criado com a paralisação das operações de embarque e desembarque de mercadorias no terminal portuário. “O atual superintendente transformou-se num entrave ao bom funcionamento do porto e como entrave, deve ser retirado imediatamente”, afirmou o líder da oposição, Durval Amaral (PFL). “O governo do Estado não pode ignorar os prejuízos que a ação tresloucada do superintendente do porto está causando ao Paraná e ao Brasil”, acrescentou.

Amaral questionou as mudanças operacionais adotadas pelo superintendente Eduardo Requião, que causaram uma fila com pelo menos 46 navios aguardando para atracar no cais e outra fila de mais de 70 km de caminhões na BR-277, que esperam para descarregar soja no porto.

Segundo Amaral, as mudanças acabaram reduzindo o preço da soja paranaense para exportação. “O agricultor paranaense que plantou a terra, trabalhou de sol a sol, investiu no aumento da produtividade e acreditou no bom momento do agronegócio tem agora um sócio oculto, que está lhe tirando o lucro da safra”, afirmou o deputado. E esse “sócio oculto” é, de acordo com o deputado, “a incompetência do atual superintendente do Porto de Paranaguá, responsável direto pelo aumento dos custos de exportação da soja paranaense”.

Para o líder do PFL, Plauto Miró Guimarães, o governador Roberto Requião não tem noção dos prejuízos que a ação do atual superintendente do porto está causando ao Paraná. “Se o governador fosse verificar diretamente o que está ocorrendo em Paranaguá, certamente saberia que é preciso trocar imediatamente a diretoria do porto, para que as exportações e importações possam voltar ao normal”, afirmou Plauto.

“Em anos anteriores, tínhamos a fila da fartura na BR-277. Hoje, temos duas filas, uma de navios e outra de caminhões, que podem ser chamadas de filas da burrice. Ou da incompetência. Ou da vergonha”, acrescentou o deputado Durval Amaral.

Senado

A crise no Porto de Paranaguá chegou ao Senado. O Senador Alvaro Dias (PSDB/PR) fez ontem apelo ao ministro dos Transportes e ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva para que interfiram no porto paranaense, paralisado há 4 dias por um movimento gerado por denúncias de corrupção e incompetência administrativa atribuídas à sua diretoria. Alvaro quer que o governo federal determine “a remoção dos incompetentes em favor da retomada de uma administração capaz de restabelecer a tranqüilidade no porto para que o trabalho volte à normalidade”.

Portuários fazem carreata

A classe portuária fez ontem pela manhã mais uma manifestação contra a administração do Porto de Paranaguá. Uma carreata com centenas de bicicletas, motos e carros percorreu as principais ruas do centro da cidade e as vias de acesso ao porto. Os operadores, agenciadores marítimos e funcionários protestaram com diversas faixas pretas amarradas nos braços e nos carros. As categorias estão paradas há cinco dias.

Durante o percurso, os manifestantes pediram para que o comércio fechasse as portas. A maioria dos estabelecimentos aderiu ao protesto. Os representantes dos funcionários do porto solicitavam a colaboração dos comerciantes, alegando que, se não houvesse trabalho, não haveria dinheiro, o que prejudicaria o comércio.

A classe portuária enfatizou durante a carreata que o porto precisa voltar a funcionar direito, respeitando o trabalhador, pois é a principal atividade de Paranaguá. Segundo os protestantes, a má administração do porto está gerando caos no setor e a superintendência mente ao dizer que a fila de espera para o escoamento na BR-277 é resultado do maior número de caminhões mandados à cidade este ano. Dados da categoria indicam que, somadas as cargas dos caminhões parados e os estoques, há 330 mil toneladas de produtos esperando o embarque. Mas, com a quantidade de navios aguardando na baía, poderiam ser escoadas 800 mil toneladas. Para atender a esse número, mais 18 mil caminhões precisariam chegar na cidade.

O sindicato dos trabalhadores do porto também informou que a administração está criando graves problemas operacionais. A categoria reivindica a retomada normal das atividades e a saída da atual direção do porto. Segundo a entidade, o descontentamento atingiu todas as camadas envolvidas com o escoamento em Paranaguá. (Joyce Carvalho)

Rodrigues nega Intervenção

O governo federal não tem a “intenção de intervir” na situação do Porto de Paranaguá, segundo o ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues. As operações no Porto de Paranaguá, um dos maiores do País, estão suspensas desde a última sexta-feira (19), por causa de uma paralisação de operadores portuários.

“O presidente Lula tem essa capacidade raríssima de negociar. E vamos encontrar uma solução”, disse o ministro, após participar de um seminário sobre agronegócios, em São Paulo.

Segundo o ministro, o setor privado é que está apresentando suas reivindicações e idéias para que o governo federal possa analisá-las junto com o governo do Paraná.

Rodrigues avalia que a paralisação em Paranaguá não vai afetar o saldo da balança comercial em março.

Polícia coleta Depoimentos

O delegado da Polícia Civil de Paranaguá, Sebastião Gaspar, aguarda para hoje a coleta dos primeiros depoimentos dos representantes de entidades acusadas de promover o locaute no Porto de Paranaguá. Segundo Gaspar, a intimação foi feita já no último sábado, mas os intimados não compareceram no dia nem nesta segunda-feira (22) porque alegaram falta de advogados.

A abertura de inquérito policial foi solicitada pelo próprio governador Roberto Requião e pelo procurador-geral do Estado, Sérgio Botto de Lacerda.

DRT

Já está em Paranaguá o auditor fiscal designado pela Delegacia Regional do Trabalho no Paraná (DRT/PR) para auxiliar no processo de negociação durante o período de paralisação dos servidores do porto. É Prince Ivo Szymanski, experiente na área de mediação de conflitos.