O Federal Reserve (Fed, o BC americano) elevou ontem, pela terceira vez seguida, sua taxa de juros em 0,25 ponto percentual, para 1,75% ao ano. O objetivo é manter o crescimento da maior economia do planeta sem riscos inflacionários. Com a elevação, os juros básicos norte-americanos voltam ao patamar verificado até novembro de 2002. O Fed baixou então a taxa de 1,75% para 1,25% ao ano.

Segundo o presidente do Fed, Alan Greenspan, a economia americana sofreu uma desaceleração em junho, causada pela disparada do preço do petróleo. O barril do produto chegou a bater o recorde absoluto de US$ 49,40 em agosto, mas acumulou altas durante todo o mês de julho.

Os juros do Fed funcionam como o piso das taxas de financiamento nos Estados Unidos. A decisão do Fed ficou dentro do esperado tanto por investidores quanto por economistas.

Em seu testemunho diante do Comitê de Orçamento do Congresso americano no dia 8, Greenspan disse que dois dos principais indicadores econômicos dos EUA – gastos do consumidor e construção de casas – se recuperaram em julho, depois de resultados fracos em junho.

“A atividade econômica atingiu um ritmo lento no fim da primavera (meados de junho no Brasil), depois de um rápido crescimento na segunda metade de 2003 e no início de 2004”, disse Greenspan ao comitê.

Inflação

Os preços ao consumidor subiram 0,1% em agosto, contra a retração de 0,1% em julho. No ano, a inflação já acumula alta de 3,7%, contra 1,9% em todo o ano passado.

A expectativa dos economistas, tanto para a inflação do mês quanto para o núcleo, era de uma alta de 0,2%.

Apesar de ter dito que a alta nos preços do petróleo contribuiu para a desaceleração da economia nos últimos meses, não há sinais de descontrole da inflação, disse Greenspan.

Empregos

A menos de dois meses da eleição presidencial nos EUA, o atual presidente americano e candidato pelo Partido Republicano, George W. Bush, vem sofrendo críticas devido ao lento aquecimento do mercado de trabalho mesmo em um cenário de leve recuperação da economia.

Em agosto, foram criados 144 mil empregos, contra 73 mil em julho. Apesar do dado positivo – foi o primeiro aumento das contratações em cinco meses – o ritmo de recuperação apresentou desaceleração neste ano.

Em agosto, 8 milhões das 147,7 milhões de pessoas consideradas em condições de trabalhar estavam sem emprego nos Estados Unidos.

Emergentes perdem investidores

Com rendimento maior, os títulos do governo norte-americano – considerados as aplicações financeiras mais seguras do mundo, com risco próximo de zero – atraem investimentos que, em tese, se sujeitariam a riscos maiores, como ações, dívidas públicas e privadas e o câmbio de moedas.

Na prática, o aumento dos juros nos EUA motiva uma completa realocação dos investimentos a partir de novas percepções de risco. Explicando: como o investimento de risco zero paga um juro maior, quem aceitava correr um pequeno risco para ter um rendimento um pouquinho melhor perde essa necessidade – pois pode ter o mesmo ganho sem risco algum.

O mesmo acontece para os investidores mais arrojados que se submetiam a um risco maior ainda para ganhar bem mais. Com o aumento dos juros pagos, esse investidor não precisa correr tamanho risco para ganhar a mesma coisa.

Por risco, entenda-se simplesmente a possibilidade remota, eventual – ou mesmo improvável – de não receber o dinheiro investido.

E assim sucessivamente, até chegar a riscos muito elevados de inadimplência, que exigem remunerações compatíveis para cobrir eventuais (e prováveis) quebras nos compromissos (ou seja: calote).

O mercado considera como de alto risco papéis de países emergentes – como o Brasil -, além de títulos de empresas em dificuldades financeiras. É por isso que o aumento nos juros norte-americanos quase sempre coincidem com o retorno de dinheiro aos EUA, valorização internacional do dólar e melhor financiamento do déficit das contas externas americanas.

Esses movimentos são ainda acompanhados pela diminuição dos investimentos em países emergentes e pelo fim do dinheiro barato disponível para esses países.

Mercado opera tranqüilo e dólar fecha em baixa

A espera pela definição dos juros básicos norte-americanos travou os negócios do mercado de câmbio, que só deslancharam na última hora de negociação. Depois de operar estável por todo o dia, o dólar à vista acabou por fechar em baixa de 0,24%, cotado a R$ 2,867 na compra e R$ 2,869 na venda.

O Federal Reserve, o banco central norte-americano, confirmou os prognósticos dos analistas e elevou a taxa básica americana de 1,50% para 1,75% ao ano.

A expectativa praticamente unânime no mercado de câmbio é de manutenção da tendência de baixa do dólar. Isso porque as exportações se mostram vigorosas e as captações externas privadas devem continuar a trazer recursos externos ao País. Com a melhora da classificação de risco do País promovida pela S&P, a estimativa é de que as captações melhorem em quantidade e qualidade.

O mercado de títulos da dívida externa também reagiu positivamente à definição dos juros norte-americanos. Com a queda dos juros pagos pelos títulos do Tesouro dos Estados Unidos, o C-Bond e o Global 40 inverteram a tendência de baixa com que vinham operando. O risco-País caía 0,21% no final da tarde, aos 457 pontos-base.

Passada a definição dos juros básicos norte-americanos, o mercado de juros concentra as atenções na divulgação da ata da reunião do Comitê de Política Monetária (Copom). O teor do documento será conhecido na próxima quinta-feira e deve sinalizar para o futuro da política monetária.

A Bolsa de Valores de São Paulo operou em alta de 0,12%, movimento financeiro de R$ 1,126 bilhão, em 23.105 pontos.