Greenspan: cautela.

O Federal Reserve (Fed, o banco central americano) fez o que todos os países e mercados financeiros esperavam ansiosamente, manteve a taxa básica de juros dos EUA em 1% ao ano. Na última vez em que mexeu nos juros, o Fed reduziu a taxa de 1,25% ao ano para 1% (a mais baixa desde 1958), patamar em que vem sendo mantida desde junho de 2003.

Nos últimos dias, o mercado financeiro tem mostrado bastante nervosismo com o provável aumento dos juros nos EUA. No Brasil, o dólar começou a se aproximar dos R$ 3, o risco-País subiu de patamares próximos a 400 pontos no começo do ano para quase 700 pontos e a Bovespa (Bolsa de Valores de São Paulo) teve no mês passado seu pior mês em mais de um ano e meio.

As taxas projetadas nos mercados futuros indicam que o banco central americano deverá aumentar os juros em agosto. Alguns analistas, no entanto, dizem que o aumento pode ser anunciado ainda em junho.

Há quem considere a cautela de Greenspan uma atitude arriscada diante dos sinais de pressão inflacionária. O índice do deflator, que serve para atualizar os valores utilizados no cálculo do PIB, apresentou uma taxa anualizada de 2,5% nos primeiros três meses deste ano.

Há também os que dizem que os juros nos EUA só começarão a aumentar em 2005. “Quando eles (membros do Fomc) começarem a aumentar a taxa de juros, o farão de um modo cauteloso e vão nos dar vários alertas antes da decisão”, disse Sung Won-sohn, economista-chefe da corretora Wells Fargo.

Greenspan

O presidente do Fed, Alan Greenspan, deu um susto no mercado em seu testemunho no Congresso, no dia 21 de abril, quando deu a entender que o aumento dos juros estava a caminho. “Como já observei antes, a taxa deverá subir em algum ponto para evitar pressões para que os preços venham eventualmente a subir”, disse Greenspan ao Congresso.

Mas Greenspan não disse quando a taxa seria alterada. Os dados econômicos coletados nos últimos meses nos EUA davam a entender que o crescimento nos níveis de atividade econômica iria ocasionar uma alta de juros. A economia americana cresceu a uma taxa anualizada de 4,2% no primeiro trimestre deste ano, segundo dados divulgados na semana passada.

Já a inflação subiu bem mais do que o previsto no período. A inflação medida pelos gastos de consumo pessoal (PCE, na sigla em inglês) mostrou um crescimento de 3,8% na comparação com o resultado do trimestre anterior, que foi de 3,2%. Esse é o principal índice de inflação observado por Greenspan.

No mercado de trabalho, foram criados 308 mil postos de trabalho, maior número em 4 anos. Segundo economistas, no entanto, é preciso que surjam entre 150 mil e 200 mil por mês, em um ritmo sustentável. O mercado de trabalho tem se mostrado um ponto fraco da atual administração federal americana. O país perdeu mais de 2 milhões de empregos desde que o presidente George W. Bush assumiu a Casa Branca, em 2001.

Mercado assimila e tem dia calmo

O mercado de câmbio encerrou as negociações de ontem devolvendo parte das altas dos últimos dias, especialmente após o anúncio da manutenção da taxa básica de juros nos EUA pelo Fed em 1% ao ano. O dólar encerrou o dia cotado a R$ 2,97, em queda de 0,36%, em parte puxado por exportadores pela manhã, aproveitando a alta cotação.

O comunicado divulgado pelo Fed não trouxe novidades, exceto a retirada do termo “paciência” com relação à redução dos juros, o que foi interpretado por alguns operadores como uma antecipação da alta dos juros. Em contrapartida, as autoridades monetárias disseram acreditar que a acomodação poderá ser removida em ritmo a ser analisado.

Com a sinalização do Fed, alguns analistas acreditam que o mercado de títulos de emergentes tende a se acalmar.

Bovespa

A Bovespa subiu mais de 1% no dia da decisão do comitê do Fed (Federal Reserve, o banco central dos EUA) de manter o juro em 1% ao ano, o menor patamar dos últimos 46 anos. No entanto, a bolsa ainda acumula perdas de 10% no ano.

Os investidores já esperavam a manutenção da taxa americana. As atenções do mercado se concentraram mais para os termos usados pelo comitê do Fed no comunicado de sua decisão. Na avaliação dos operadores, o Fed prepara o mercado para uma alta dos juros em breve, mas esse processo não será precipitado nem brusco como temem alguns analistas.