A alta de 1,5% em julho ante junho do Índice de Confiança da Indústria (ICI), medido pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), é um movimento ainda “insuficiente” para sinalizar uma nova tendência de confiança no setor, ponderou nesta segunda-feira, 27, o superintendente adjunto para Ciclos Econômicos do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre/FGV), Aloisio Campelo Júnior. Segundo ele, é preciso uma disseminação maior de crescimento da confiança entre os diversos segmentos da indústria para indicar uma melhora.

Em julho, a alta do ICI atingiu 7 dos 14 principais segmentos acompanhados pela pesquisa e foi determinada pela melhora nas expectativas em relação aos meses seguintes. O Índice de Expectativas (IE) avançou 3,2%, após cinco meses de quedas consecutivas, ao atingir 67,9 pontos, ainda o segundo pior resultado da série histórica, melhor apenas do que o nível de junho deste ano (65,8 pontos). Já o Índice da Situação Atual (ISA) ficou “praticamente estável”, ao recuar 0,1%, para 70,3 pontos, também o segundo pior nível da série.

“Claramente o cenário é que a indústria teve alguma melhora na expectativa, mas algo ainda muito subjetivo. Isso indica que o 3º trimestre vai ser menos pior que o 2º, mas isso em função de uma melhora na demanda, muito mais externa do que interna”, ressaltou Campelo em entrevista coletiva para comentar os dados. Segundo ele, os números são um indicativo de que a indústria está um “pouco menos pessimista”, influenciada por uma melhora principalmente no segmento de Bens de Consumo.

Cautela

Campelo ponderou que o crescimento do IE deve ser visto “com cautela” por quatro fatores principais. Um deles é a alta do indicador ter sido concentrada. Entre as categorias de uso, houve avanço somente nos Bens de Consumo, principalmente em Não Duráveis, influenciado por alimentos. Essa concentração, acrescentou, também se deu entre os quesitos do IE, com o Indicador de Produção Prevista representando 80% do avanço. “É como se as empresas tivessem expectativa de produção em alta após um grande período de forte queda”, avaliou.

Soma-se a esses dois fatores, ressaltou, o fato de todos os componentes do Índice de Expectativas continuarem abaixo de 100 pontos, refletindo o pessimismo. “Isso vem como uma ducha de água fria”, disse. O economista citou ainda a média trimestral móvel do indicador que ainda continua em queda. No trimestre encerrado em julho, o IE caiu para 67,5 pontos, ante 68 pontos nos três meses encerrados em junho. “Todos os indicadores do índice estão em queda desde janeiro deste ano”, destacou.

“Podemos até ter atingido o fundo do poço e a confiança melhorou um pouco. Mas, com a curva mostrando que o nível atual do ICI atual está abaixo do registrado em outros períodos de recessão, é difícil acreditar que estamos melhorando”, afirmou. Campelo avalia que a “válvula de escape” atual é a demanda externa, com uma recente melhora de competitividade, em razão principalmente da alta recente do dólar. Ele pondera, contudo, que, para uma “recuperação consistente”, tem de haver uma recuperação do mercado interno.

Produção industrial

O economista comentou ainda que, com o ISA e o NUCI (que ficou estável em 78,2% entre junho e julho) “andando de lado”, “não dá para afirmar que houve alta na produção industrial em julho”. Para o segundo trimestre, Campelo previu que a produção industrial física em geral deve cair 1,8% ante os três meses anteriores, ante recuo de 2,3% no primeiro trimestre, na mesma base de comparação. Somente a indústria de transformação deve recuar 2,2%, após retração de 2,7%.