Rio – O maior fundo de pensão da América Latina completa cem anos na próxima sexta-feira, 16. Enquanto comemora a data, o presidente da Caixa de Previdência dos Funcionários do Banco do Brasil (Previ), Sérgio Rosa, enumera as ações com as quais sonha garantir outro século de história à fundação que, hoje, administra R$ 57,8 bilhões e detém parte do capital de 173 companhias brasileiras. São prioridades reestruturar a participação acionária nas empresas de telecomunicações, reduzir para cerca de 45% as aplicações em renda variável, hoje em 60%, e investir em infra-estrutura – nas palavras de Rosa, um gargalo para a expansão da produção e das exportações brasileiras.

O senhor era representante dos funcionários do Banco do Brasil na Previ e acabou presidente do fundo. Como foi essa transição? Como é a convivência com os investidores?

SERGIO ROSA: É uma característica do novo governo ter uma relação forte com pessoas que tiveram uma trajetória próxima dos movimentos sociais. Minha convivência com os investidores tem sido muito tranqüila, porque os princípios são os mesmos: a defesa do patrimônio da entidade, o respeito aos direitos dos participantes e da patrocinadora. Isso está sendo possível porque este governo tem uma visão muito consistente do sistema de fundos de pensão. É a mesma postura da diretoria do BB.

Ao longo da história da Previ, surgiram várias denúncias sobre seu uso político. Como é a relação com o governo Lula?

ROSA:

É uma relação de muito respeito, muito diálogo. Como investidores com participação em várias empresas, eventualmente somos chamados a opinar sobre alguma demanda delas. Temos um relacionamento muito intenso com o BNDES e os ministérios do Desenvolvimento, da Fazenda, de Minas e Energia. Tem sido positivo porque temos espaço para dar nossa opinião sobre a possibilidade de desenvolver determinados setores ou melhorar políticas públicas e, ao mesmo tempo, manter na diretoria da Previ o perfil de decisões técnicas, orientadas para a rentabilidade.

Nunca houve nenhum tipo de ingerência na fundação?

ROSA:

Isso se percebe na prática. Em um ano e três meses de governo não houve nenhum investimento dos fundos que tenha sido fruto de qualquer ingerência ou interesse político.

Isso ocorreu no passado?

ROSA

: No passado, houve uma influência maior nas decisões do fundo. Vê-se isso pelo descasamento entre alguns fundamentos que consideraríamos saudáveis e a prática real dos investimentos da Previ. Estamos num volume grande de empresas privatizadas, em algumas situações desvantajosas.

O senhor se refere especificamente ao setor de telecomunicações?

ROSA:

Telecomunicação é, particularmente, uma situação dessas. Neste caso, as evidências de que houve influência política são maiores pela divulgação de conversas gravadas na época, que demonstraram interesse na associação da Previ com alguns grupos.

Sua gestão pretende corrigir isso? Comenta-se que a Previ quer reestruturar, por exemplo, seus investimentos em telecomunicações.

ROSA:

Temos esse interesse. O problema é que neste momento não temos liberdade para dispor de nossos investimentos como gostaríamos. Basicamente, todos os investimentos realizados pelo fundo criado pelo Opportunity são aplicações sobre as quais não temos margem de manobra. Temos trabalhado para recuperar as condições que consideramos justas para os fundos de pensão, particularmente, a Previ.

Essa é uma prioridade da sua gestão?

ROSA

: Tem sido.

Com quais políticas anunciadas pelo governo Lula a Previ está mais afinada? O fundo planeja participar de algum projeto de parceria público-privada (PPP)?

ROSA:

Temos interesse em todos os setores onde já temos participações, como energia elétrica, telecomunicações, siderurgia, mineração e infra-estrutura. Fundo de pensão é investidor de longo prazo. Precisamos de um ambiente econômico saudável pelos próximos dez, 20, 30 anos e sabemos que hoje a infra-estrutura é um gargalo para a expansão da produção e das exportações. Então, como todo investidor de longo prazo, temos preocupação que haja a modernização do segmento de infra-estrutura no Brasil.

Quais são os planos para o setor elétrico?

ROSA:

Na prática, fizemos uma parceria com o BNDES, especificamente, na capitalização da CPFL. A operação propiciou uma estrutura melhor para garantir o pagamento da dívida da empresa. Um fundo de pensão como a Previ tem muita coisa em comum com o BNDES.

Em 2003, a Previ voltou a ter resultado positivo, depois de dois anos negativos. A que se deveu este bom desempenho?

ROSA:

Boa parte do resultado da Previ tem a ver com o ambiente econômico como um todo. Foi a valorização de ações que a Previ já detinha, foi a boa rentabilidade do setor de renda fixa e algumas ações que tomamos.

É curioso atribuir ao ambiente econômico, quando o PIB brasileiro recuou 0,2%.

ROSA:

Para o mercado financeiro o ano foi bom. Para quem tinha dinheiro para comprar ações e títulos públicos…

O senhor está otimista com a economia brasileira?

ROSA:

Trabalhamos com um cenário otimista.

O senhor vê condições de um crescimento duradouro?

ROSA:

Sim.

Infante, presidente dos 50 anos

O advogado Lecy Infante Cardoso de Castro foi o décimo presidente e teve a terceira maior passagem à frente da Previ. Comandou a entidade por oito anos, quando o número de participantes beirava os mil – hoje passam de 124 mil. Funcionário aposentado do Banco do Brasil há 34 anos – e recebendo seus vencimentos rigorosamente em dia – ele ainda hoje se espanta com a dimensão adquirida pela instituição que presidiu de 1952 a 1960 e da qual é o mais velho ex-presidente vivo.

– Jamais pensei que chegasse a esse tamanho. O êxito dela é imenso. É uma caixa poderosíssima e eu a aplaudo – diz Infante, que, aos 88 anos, ainda chama a Previ de caixa, numa referência ao primeiro nome da fundação: Caixa Montepio dos Funcionários do Banco do Brasil.

Com memória invejável, recita os números de sua gestão. Meio século atrás, os ativos da Previ somavam 1,4 bilhão de cruzeiros, integralmente aplicados em imóveis, financiamento habitacional e ações do BB. Infante lembra de uma Previ que tinha não mais que 500 beneficiários, emprestava dinheiro e prestava serviços médico e odontológico aos funcionários do banco. Era a remota sombra do gigante centenário de hoje.