O Brasil captou ontem 750 milhões em euros com a venda de um novo bônus da dívida externa com vencimento em 24 de setembro de 2012. O título vai pagar ao investidor uma remuneração (“yield”) de 8,70% ao ano. É a primeira captação em euro do governo Lula. Desde abril de 2002, o País não lançava títulos na moeda européia.

Considerando a cotação de ontem do euro (US$ 1,216), a operação totalizou cerca de US$ 912 milhões. Inicialmente, a oferta era de 500 milhões de euros, mas foi elevada devido ao excesso de demanda, estimada por alguns analistas em mais de 2 bilhões de euros. Os recursos entram nas reservas internacionais do País no próximo dia 24.

A emissão do bônus foi coordenada pelo banco alemão Dresdner Kleinwort Wasserstein e o suíço UBS. O cupom (juro nominal) do bônus ficou em 8,50% e teve “spread” (diferença entre taxas) de 4,77% ao ano acima do título de referência do Tesouro alemão.

Desde a semana passada, circulavam rumores sobre a operação, que ganharam força após a notícia da viagem do secretário do Tesouro Nacional, Joaquim Levy, e do diretor de Assuntos Internacionais do Banco Central, Alexandre Schwartsman, à Europa, onde conversaram com investidores na Alemanha, Suíça e Reino Unido.

Os dois adotaram um discurso bastante conservador – o que agrada ao mercado – e afirmaram que o BC precisa “desinflacionar” a economia, o que pode significar aumento da taxa básica de juros (Selic).

O governo não deve enfrentar dificuldades para atrair investidores porque a economia brasileira cresceu 4,2% no primeiro semestre deste ano – a maior expansão de 2000 – e porque o risco-país está em patamar baixo se comparado à média histórica.

Apetite por bônus de emergentes

A emissão de ontem faz parte do plano do governo de captar US$ 5,5 bilhões até o final deste ano para honrar seus compromissos. Essa meta começou a ser perseguida em outubro do ano passado, quando foi lançado US$ 1,5 bilhão. Neste ano, já foram feitas três emissões em dólar (US$ 3 bilhões) e a de ontem em euros (cerca de US$ 912 milhões).

Para completar a meta deste ano, falta captar apenas cerca de US$ 88 milhões. Mas há analistas que falam que o governo emitirá uma valor bem maior, já antecipando suas captações de 2005.

Otimismo se reflete no dólar e na Bovespa

Após o feriado do Dia da Independência, o mercado brasileiro retomou a semana em clima de otimismo. O dólar teve a terceira queda consecutiva (-0,30%) e fechou cotado a R$ 2,901 – o menor valor desde o último dia 14 de abril. Nesta quarta-feira, a moeda dos EUA chegou a custar menos de R$ 2,90. Houve negócios com uma cotação mínima de R$ 2,897, uma baixa de 0,44%. Mas a divisa não conseguiu ficar por muito tempo abaixo do patamar psicológico de R$ 2,90.

Além da queda do dólar e da alta na Bovespa (a Bolsa de Valores de São Paulo fechou ontem em alta de 0,15%, em 22.534 pontos), o risco-Brasil também melhora, refletindo este momento de otimismo. O risco-Brasil registra 496 pontos, queda de 0,2%.

Isso mostra que os investidores estrangeiros voltaram a apostar no Brasil. Sem perspectiva de uma forte alta dos juros nos EUA, os papéis dos países emergentes, liderados pelo Brasil, oferecem a possibilidade de um lucro maior e mais rápido.

O risco-Brasil é calculado pelo Banco J.P. Morgan baseado na cotação de diversos títulos da dívida externa brasileira. Ele serve como um “termômetro” da expectativa de investidores interessados em comprar títulos emitidos por entidades brasileiras (privadas ou públicas).

Crescimento

Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) elevou ontem a previsão para o crescimento da economia para este ano. De acordo com o boletim conjuntural, a economia brasileira deve crescer 4,6% este ano e 3,8% em 2005. Em junho, o Ipea previu crescimento de 3,5% este ano.

“A economia brasileira voltou a dar sinais de haver recuperado dinamismo”, disse o relatório do Ipea.

O Ipea está prevendo também elevação dos juros no último trimestre, para 16,5%, ante previsão anterior de juros a 15,5%.

Para o IPCA, que baliza o sistema de metas de inflação do País, a projeção subiu para 7,3%, ante previsão anterior de 6,5% este ano.

A balança comercial deve fechar o ano com um superávit de US$ 32,9 bilhões, ante previsão anterior US$ 27,1 bilhões.