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Economista critica a timidez do governo Dilma Roussef dada a gravidade da situação.

Com a resignação que é característica de quem conhece o impacto de cada declaração sobre o cenário econômico, o economista e ex-presidente do Banco Central, Gustavo Franco, que traz na biografia a participação direta na implementação do Plano Real, concedeu entrevista a O Estado do Paraná. Ele esteve em Curitiba, nesta quarta-feira (18), para participar do Projeto UniBrasil Futuro, das Faculdades Integradas do Brasil.

Apesar de comedido, o economista não conteve as críticas sobre a forma como está sendo conduzida a política econômica brasileira e, nas entrelinhas, contestou a subserviência do Banco Central em relação ao governo.  Franco também foi emblemático em atribuir a pressão inflacionária ao que ele qualifica como sendo “uma política fiscal fora de controle”.

O Estado do Paraná – Diariamente, quantas vezes o senhor é procurado para falar de inflação?

Gustavo Franco – Ultimamente é só inflação. Antigamente, era por conta do câmbio que eu era procurado.

OEPComo o senhor compara o atual momento da economia brasileira com a época da implantação do Plano Real?

GF – No início do Plano Real, o grande desafio também era segurar o câmbio, que caiu a R$ 0,88, R$ 0,83 e a partir daí nós fizemos muitos anos de ginástica para o dólar não cair. O que aconteceu em 1998, anos depois, é uma coisa parecida com 2008. Só que na ocasião nós não tínhamos flutuação cambial, então não deixamos haver uma desvalorização cambial muito grande. No início do plano, foi uma surpresa para muita gente o câmbio cair.

OEP – Foi o período dificil, com lançamento dos leilões. Até que ponto eles funcionaram?

GF – As pessoas que diziam na época que a paridade do real com o dólar, R$ 1 a U$1, era mentira, nós testamos no mercado e o câmbio caiu abaixo disso, a R$ 0,83, e a ameaça era cair mais. Durante todos esses anos de 1994 a 1998, por quase cinco anos, foi feito leilão de compra de dólar quase todo dia, como hoje. Aí veio 1998 com a crise da Rússia e tivemos um problema. Poderíamos ter flutuado a moeda, mas tínhamos a preocupação com a inflação, que estava muito pertinho.

OEP É a preocupação atual, mas na época o que se temia era uma derrocada da estabilidade, não é?

GF – No final das contas, fizemos um grande esforço para não desvalorizar, mas acabou desvalorizando a moeda. Houve um repique inflacionário, mas felizmente se conseguiu trazer de volta. Daí que vem a origem das metas de inflação. Foi parecido com 2008, só que em outro contexto, o impacto foi muito forte, a recessão no Brasil foi muito pior, a desvalorização muito maior, mas foram momentos parecidos em matérias de crise. O fato é que desde então o comportamento do câmbio tem sido parecido.

OEP – O que fica confuso é a valorização exagerada e, agora, o dólar parece que está derretendo. Onde isso vai parar?

GF – É um câmbio que vem valorizando, valorizando, valorizando. Expressando uma economia que está ficando mais forte, a moeda reflete isso, mas daí vem um susto e faz o câmbio voltar, como foi em 1998. Aí começa a valorizar de novo. Valorizou continuamente durante todos esses anos de 2002 até 2008, com a crise. Foi de quase R$ 4 para R$ 1,50. Na crise de 2008, foi novamente para R$ 2,04. Agora, está na faixa de R$ 1,60 com sinais de que vai cair mais.

OEP – Mais confuso ainda é o fato de os críticos da política econômica de então serem os administradores de hoje…

GF – Hoje ninguém diz, como na minha época, de que tudo é uma farsa. Agora, o ministro Guido Mantega, que na ocasião dizia se tratar de uma farsa e que criou essa mitologia de que nós estávamos segurando o câmbio para não subir, quando estávamos segurando para não descer, esse mesmo ministro explica que o câmbio está forte porque o Brasil é uma economia forte. E assim ele se exime de qualquer participação.

OEP Há razões domésticas para o câmbio se manter baixo?

GF – Os fundamentos da economia são melhores e os fatores internacionais são conjunturalmente bons, além do forte preço das commodities. Elas estão bombando em matéria de preço e isso amplia as exportações brasileiras tremendamente. Também temos a entrada de capital estrangeiro de boa qualidade, e não apenas o especulativo. Eu me refiro à capital de investimento mesmo, em um nível que nunca houve na história do Brasil. São notícias boas e se continuarmos a fazer as coisas mais ou menos certas isso vai ser mais acentuado ainda.

OEP – E o governo da presidente Dilma Rousseff, até o momento, tem demonstrado isso? As medidas macroprudenciais demoraram a surtir efeito, mas podem ser encaradas como um meio de conduzir de “maneira certa” a economia brasileira?

GF –  As medidas ainda parecem tímidas perante o que ela falou. Ela se comprometeu a oferecer taxas de juros de primeiro mundo, mas para isso precisamos ter finanças públicas de primeiro mundo, que não temos ainda; precisamos ter medidas de política fiscal mais agressivas do que as que nós fizemos. As medidas de política monetária refletem o excesso de cuidado do Banco Central em não prejudicar o crescimento. É admissível que se tenha esse cuidado, mas a sensação gerada é que o Banco Central não está sendo conservador o suficiente.

OEP – Em outras palavras, o senhor avalia que falta autonomia ao Banco Central?

GF – Essa sensação existe, embora ninguém possa documentar qualquer instrução. Francamente acredito que não tenha ocorrido uma interferência direta e nem precisa ocorrer. Às vezes, o Banco Central lê a vontade da presidente sem receber qualquer instrução.

OEP – Ocorreram eventos paralelos como a troca no comando da Vale do Rio Doce que reforçaram essa “sensação” de interferência. O senhor concorda?

GF – Esses sinais ambíguos não estão sendo lidos muito bem pelo setor privado que está desconfiado. E esse disse me disse sobre a inflação, que é geral, está alimentado pela ambigüidade das autoridades econômicas em relação ao tema. A presidente falou nisso uma vez, falou muito firme, mas somente uma vez. Esse tipo de coisa, o presidente do Banco Central e o ministro da Fazenda têm que falar todo dia com firmeza e sem hesitação. Nós não estamos vendo isso.

OEP – Como o senhor analisa as razões para essa pressão inflacionária?

GF – A inflação não comporta adjetivos. Toda vez que alguém começa a dizer qual o caráter da inflação, está dizendo bobagem. E para isso eu me sirvo de um mestre da minha profissão, o professor Mário Henrique Simonsen, que quando diziam para ele que a inflação tinha caráter de demanda ou caráter financeiro, ele respondia que inflação não tem caráter. A inflação é um processo social complexo que envolve vários fatores ao mesmo tempo. Tem 400 anos de estudo e pesquisa em teoria econômica que levaram a uma sabedoria acumulada sobre o assunto bastante firme, ou seja, não vamos inventar nada no país. As causas da inflação são as de sempre, que tem relação com gasto público, déficit público e política fiscal fora de controle. Todo o resto é subsidiário a essa realidade. E se continuar assim, vamos ter que aturar mais inflação. Mas é preciso ter clareza de quem é a culpa. Hoje a situação é perversa para o Banco Central, uma vez que o país tem uma taxa de juros absurdamente grande, mas o único instrumento que o Banco Central tem para cumprir sua missão de evitar o avanço da inflação é o juro. Porém, quem está aumentando a taxa de juros não é o Banco Central, é o responsável pela política fiscal. Quanto mais fisiologia, quanto mais populismo no gasto público, grandes obras, mais juros iremos ter e mais inflação.

OEP – E como equalizar a redução de gastos públicos com as necessidades de obras, seja por conta dos eventos Copa e Olimpíadas, seja pela demanda pela melhoria da infraestrutura?

GF – Quem falou que é só o gasto público que pode ser usado para financiar tudo isso. O dinheiro pode ser privado. Estádios, aeroportos podem ser feitos com o dinheiro privado. Por que não faz? Quando o governo escolhe um modelo de exploração do petróleo que é caríssimo do ponto de vista dos recursos públicos, indiretamente ele abre mão de fazer uma série de outras coisas. O dinheiro que foi para a Petrobras, não foi pouco, garante a nossa soberania com o pré-sal, mas custou muito caro. As bravatas ideológicas são muito caras. Eu não sei se a gente tem esse dinheiro todo para gastar nessa rubrica, tem outras coisas mais importantes. Tanto que agora está faltando dinheiro para os estádios, aeroportos, portos, etc.

OEP – Qual o peso dos preços das commodities na inflação de alimentos?

GF – Poderia não ter peso nenhum, se tivéssemos com situação fiscal correta, o câmbio não estaria onde está e os preços de commodities seriam compensados por valorização da moeda. Mas não podemos usar o câmbio porque ele já está desvalorizado demais e temos gasto fortunas para evitar que ela caia e com isso importamos uma inflação que não precisávamos importar. Essa história de que a culpa não é nossa, que as commodities que estão aumentando, é furada.

OEP – Qual o peso do escândalo envolvendo o presidente do FMI, Dominique Strauss-Kahn, no mercado financeiro internacional?

GF – Nenhum. A instituição tem um ritmo próprio que hoje em dia independe de quem a chefia.

OEP – Acredita que o novo governo realize as reformas (tributária, fiscal, política)?

GF – Não houve nenhuma iniciativa e não creio que esteja claro que a presidente queira isso. Mas as pessoas continuam demandando pelas reformas, porque o custo é percebido no ambiente de negócios. É um problema que está no cotidiano de todo mundo.

OEP – Como o senhor observa a lucratividade dos bancos brasileiros?

GF – Os bancos no Brasil têm muita lucratividade. É um segmento da economia que nos últimos dez anos acompanhou a evolução do crédito brasileiro que dobrou de tamanho em relação ao PIB. É de se imaginar que o capital dos bancos também tenha dobrado de tamanho. O fato é que eles cumpriram seu papel, aumentou o crédito extraordinariamente em um período de tempo relativamente curto. Em uma economia de mercado não há nada de errado em ganhar dinheiro. É um setor em que ganhar dinheiro é bom e perder é uma tragédia.

OEP – O Brasil corre risco de desarranjar esses 17 anos de estabilidade econômica?

GF – Acho que o risco existe e é saudável que ele seja debatido, porque é esse temor que irá provocar o surgimento de medidas que vão evitar que isso aconteça. Infelizmente há um problema. Nosso organismo econômico foi viciado nessa droga, no passado, e temos que tomar cuidado.