Uma ideia inovadora, se apenas boa, pode não ser garantia de sucesso. Mas um bom plano de negócios, unido a uma grande dose de profissionalismo, podem servir de atrativos para investimentos que podem chegar na casa dos milhões de reais, às vezes até a fundo perdido, tornando-os com mais chances de terminar bem sucedido. Estima-se que o Brasil tenha disponíveis, hoje, R$ 17,6 bilhões para serem investidos em empresas inovadoras. Mas muitas delas, por falta de conhecimento dos meios ou mesmo da existência destes recursos, não estão aproveitando a chance.

O momento é tido como propício para correr atrás desse empurrão. Apesar de escassos no amplo universo de micro e pequenas empresas brasileiras, não é difícil encontrar casos de sucesso em que ideias receberam investimentos e estão prontas ou em pleno desenvolvimento, ou mesmo empresas iniciantes (conhecidas como “startups”) que estão à procura de capital para deslancharem.

Em Curitiba, uma empresa que criou um aplicativo web gratuito, está em contato com investidores, depois de ter o projeto apresentado em eventos para esse fim. A ferramenta, batizada de Kidux, permite que pais acompanharem seus filhos no meio digital, ajudando a evitar contato das crianças com conteúdos impróprios ou pessoas mal intencionadas.

De acordo com o sócio da empresa e um dos criadores do programa, Leandro Cruz, o momento é bom para se conseguir investimentos. Para facilitar a entrada de capital, os sócios até desmembraram a empresa de software que tinham para isolar o projeto – assim, investidores podem colocar seu dinheiro apenas no Kidux, sem correr risco de ver o capital contaminado por outros passivos da empresa. Cruz conta que já são dois anos trabalhando no projeto, que para começar contou com o dinheiro de um investidor-anjo. “Mas de alguns meses para cá, precisamos de mais capital”, diz.

Saúde

Outro caso, no Paraná, é o da empresa Saubern, de Campo Mourão. A companhia foi fundada em 2002, em uma incubadora local focada na área de biotecnologia, a Fundação Educere. Um estudante, Francisco Reigota, idealizou uma reprocessadora automática de filtros de hemodiálise, e recebeu o apoio da entidade para concretizar sua criação. Agora, já estabelecida, a empresa foi aprovada em um edital de subvenção econômica da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), para desenvolver a primeira máquina de hemodiálise brasileira.

Segundo a administradora Silvia Malysz, responsável pela área financeira e de captação de recursos da Saubern, o processo para obtenção de investimentos não é fácil: “Foram 10 meses escrevendo o projeto. É preciso ter uma linha de pensamento muito clara sobre o que vai ser desenvolvido e quanto vai ser preciso para isso, além de comprovar que o produto é inovador”, explica.

No final, porém, Malysz garante que o resultado é compensador. “Vale muito a pena”, diz. No caso do projeto da Saubern, o aporte é de R$ 2 milhões, divididos em seis parcelas – tudo a fundo perdido. “Com isso tivemos a chance de buscar bons profissionais, como físicos e engenheiros mecatrônicos, entre outros, em grandes centros do País”, diz.

O dinheiro a fundo perdido, explica Malysz, não significa que os valores são liberados sem critério: ele só chega porque o projeto foi considerado benéfico à sociedade. “Além disso, temos que prestar contas de tudo que gastamos, e esse valor não pode ser usado em outras áreas da empresa”, explica, brincando: “A parte mais difícil é gastar.”

Vale do Silício é um exemplo

A região do Vale do Silício, no estado da Califórnia, nos Estados Unidos, é um dos maiores exemplos da importância de investimentos em inovação. Nos anos 1950, o local, próximo à cidade de San Francisco, começou a sediar uma grande quantidade de pequenas empresas inovadoras. Os projetos eram funda,dos por alunos, incentivados por professores da universidade de Stanford, que fica na região. As pequenas companhias chamaram a atenção de investidores, inclusive pessoas físicas, que apostavam nas ideias. Apple, Google, HP, Adobe, Sun, entre centenas de outras, são exemplos de empresas que começaram suas atividades na região. (HM)

Há bastante capital disponível para atender empresas

Aos poucos, instituições brasileiras estão tentando aproximar investidores de inovadores. De acordo com Wikings Machado, gestor do Núcleo de Capital Inovador, que faz parte do Centro Internacional de Inovação (C2i) da Federação das Indústrias do Estado do Paraná (Fiep), há, de fato, muito capital disponível, porém boa parte dele é destinado a empresas já estabilizadas e com graus avançados de governança corporativa.

“É até um constrassenso em um País em que a maior parte (90%) das empresas são micro e pequenas”, diz Machado. “Aí o [capital] que existe acaba não batendo com a demanda”, completa. Mesmo assim, ele afirma que ainda sobra um volume bem grande de dinheiro que poderia ser investido em empresas pequenas e inovadoras, mas não chega a elas porque elas desconhecem os caminhos para chegar a esses investidores.

Segundo Machado, o capital pode vir de diferentes lugares. Passa por investidores privados, fundos de pensão e instituições públicas como a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Ele lamenta que a figura de investidores-anjo, comum no Vale do Silício, nos Estados Unidos -local que é considerado o maior berço de empresas inovadoras de ciência e tecnologia do mundo -, ainda seja pouco encontrada aqui no Brasil. “É um fator até mais cultural, de pouca propensão ao risco”, observa.

O panorama é parecido no Paraná. Machado informa que, no Estado, existem 22 incubadoras onde são geradas boas ideias, e um movimento empreendedor que classifica como interessante. Porém, ele diz que, na hora de aparecerem investidores, ainda estamos atrás de dois de nossos vizinhos: São Paulo e Santa Catarina. “Não temos fundos de investimentos atuantes”, lamenta.

Um passo para uma reversão dessa situação está sendo dado com o Núcleo que Machado coordena, que foi criado há pouco mais de um mês. O órgão monitora oportunidades de fomento para negócios inovadores das empresas participantes. Os consultores do C2i também ajudam as empresas a elaborar projetos e planos de negócios, e agenciar a captação de recursos, além de representá-las junto aos órgãos de fomento -trabalho que entidades como o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae-PR) também fazem.

Enquanto grande parte desse capital fica parada, muitas empresas – paranaenses, inclusive – correm atrás e conseguem aportes financeiros. No início do mês, por exemplo, a Finep uma lista com as 50 pequenas empresas do Estado que receberão recursos do Programa de Apoio à Pesquisa na Pequena Empresa (Pappe-Subvenção). São R$ 11,4 milhões, a fundo perdido, ou seja, sem expectativa de retorno à investidora. Mais de 300 empresas concorreram aos recursos. (HM)